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Investir em equipes esportivas. Golaço ou bola fora?

Felipe Silveira23/10/2020

Não é muito comum a gente ver notícias relacionadas a algum esporte em um jornal sobre economia e finanças, certo? Mas há alguns dias, o Wall Street Journal fez uma matéria sobre o clube inglês Liverpool F.C. e sobre a franquia de baseball Boston Red Sox.

Em comum, os dois times têm o dono, o Fenway Sports Group (FSG). E o motivo da matéria é a possível aquisição de uma participação minoritária no grupo por um SPAC.

Um SPAC é um veículo de investimentos que tem como objetivo levantar capital para adquirir uma empresa ou uma participação em uma empresa (normalmente de capital fechado). É uma empresa que faz IPO sem de fato “existir”, até por isso são chamadas de blank check company, ou empresa de cheque em branco.

Pode parecer muito estranho, mas os SPACs estão na moda nos EUA. O volume total de grana levantado por meio de SPACs por lá já passou de US$ 54 bilhões, segundo a Refinitiv. Para termos uma ideia do que isso representa, no ano passado, o total foi de US$ 13,5 bilhões. Um crescimento gigantesco!

E existe um SPAC chamado RedBall Acquisition Corp. O RedBall levantou US$ 575 milhões em agosto e planeja levantar mais US$ 1 bilhão para comprar menos de 25% do FSG em uma operação que avaliaria a companhia em US$ 8 bilhões (valor de mercado + dívidas). Tudo isso de acordo com o WSJ. Aliás, quem está envolvido nesse SPAC é Billy Beane, dirigente que mudou o panorama do baseball e que talvez você conheça melhor como o personagem interpretado por Brad Pitt no filme Moneyball.

E o FSG é composto não só pelos dois times centenários, mas também pela NESN, a rede de TV que detém os direitos de transmissão dos jogos do Red Sox e do time de hockey de Boston, os Bruins, pela Roush Fenway Racing, equipe de corrida da Nascar, e pela Fenway Sports Management, empresa de marketing esportivo que representa LeBron James.

O melhor jogador de basquete da atualidade, aliás, é acionista minoritário do Fenway Sports Group.

O Red Sox foi a primeira aquisição do grupo, em 2002, e dois anos depois foi vencedor da World Series, a final da MLB, o campeonato americano de baseball, depois de 86 anos. E por incrível que pareça, essa é apenas a terceira maior seca histórica entre os times da MLB. Desde então, o time já foi campeão mais três vezes.

Segundo a Forbes, é a terceira franquia mais valiosa do esporte, com valor estimado em US$ 3,3 bilhões. Esse valor não reflete necessariamente o quanto investidores aceitam pagar por ele, como vamos ver mais a frente. E lá em 2002, o FSG pagou apenas US$ 380 milhões pela aquisição.

Já o Liverpool foi adquirido em 2010 por US$ 476 milhões. Para não perder o costume, o clube também acabou com uma seca nas mãos do FSG, ganhando a Premier League desse ano após 30 anos. Uma curiosidade é que um dos antigos donos do Liverpool era Tom Hicks, que fundou a Hicks, Muse, Tate & Furst, que no final dos anos 90 chegou a fechar parceria com dois clubes brasileiros, Corinthians e Cruzeiro, mas que não duraram muito tempo.

Apesar de não ser algo muito comum, o FSG não faria do Red Sox e do Liverpool os primeiros times esportivos listados nas bolsas americanas.

A Madison Square Garden Sports é dona do New York Knicks, da NBA, e do New York Rangers, da NHL, de hockey e está listada na NYSE. O Atlanta Braves, também de baseball como o Red Sox, tem capital aberto na Nasdaq e é comandado pela Liberty Media, que também é dona da Formula 1 (também com capital aberto na Nasdaq). Além disso, outro clube inglês, o Manchester United, também tem seus papéis negociados na New York Stock Exchange.

Um time esportivo tem, via de regra, três linhas de receitas: receitas comerciais, direitos de transmissão e matchday.

Na linha de receitas comerciais entram os patrocínios do clube, os licenciamentos da marca e as vendas de produtos.

A de direitos de transmissão normalmente decorre de acordos coletivos, como da NFL e da Premier League, mas existem exceções. A MLB tem um modelo meio híbrido. A liga vende alguns pacotes para emissoras que transmitem jogos nacionalmente (normalmente pacotes de um jogo por semana), mas os times detêm o direito de transmissão dos demais jogos. Isso possibilita a criação de empresas como a NESN, redes do próprio grupo para transmitir os jogos. Para times de grandes mercados, isso tem se tornado comum. Os Yankees de NY têm a YES, os Cubs de Chicago têm a Marquee Sports.

Já na linha de matchday entra toda a receita com venda de ingressos, camarotes, hospitalidade e comida no estádio.

A distribuição entre essas linhas vai depender do clube, não há um padrão entre todos.

Historicamente, as receitas com matchday sempre foram muito relevantes, mas foram perdendo espaço. Especialmente para receitas vindas da TV, fundamentais para todos os clubes, mas principalmente para os menores. Já os gigantes também têm utilizado muito bem a linha de receitas comerciais.

O gráfico abaixo, formulado pela Deloitte, mostra a importância média de cada linha de receita para os 20 clubes europeus com as maiores receitas. Mesmo nesse seleto grupo, já dá para observar diferenças importantes…

Essa é a evolução da receita do Manchester United nos últimos dez anos, retirada do site de RI do clube:

A internacionalização da marca foi fundamental nessa melhora vista nas receitas comerciais e também ajuda bastante no aumento das receitas com a venda dos direitos de transmissão da Premier League e da Champions League.

É preciso salientar uma diferença importante entre as franquias americanas e os clubes europeus. O resultado dos americanos mostra uma maior independência entre o resultado de campo e o financeiro.

Mesmo times que vão muito mal, como é o caso do New York Knicks, diga-se de passagem, conseguem entregar resultados financeiros satisfatórios. Os números de 2020 foram muito impactados pela pandemia, mas em 2019, quando os Knicks foram o pior time de toda a liga americana de basquete, a receita da MSG Sports foi de US$ 812 milhões, 4% acima da temporada anterior.

E vale mencionar que a temporada dos Ranges, na NHL, não foi lá muito melhor. A equipe também não se classificou para os playoffs.

Já no caso dos europeus, o campo define muito as finanças. Ficar de fora da Champions League custa muito. Cerca de US$ 100 milhões para um clube grande. Mesmo não ir tão longe no torneio faz diferença.

O Liverpool ganhou a competição na temporada 2018/19, mas caiu nas oitavas na temporada seguinte, caindo para o Atlético de Madrid do Simeone. A diferença nas receitas vindas da UEFA, incluindo premiação e fatia dos direitos de TV da competição caiu 28%, para £ 71 milhões, o que no câmbio atual estaria próximo de US$ 92 milhões. Quando levantou a taça, o repasse foi de cerca de US$ 128 milhões.

Além disso, como eu comentei, o valor dos clubes costuma ser menor do que o estimado em listas como a da Forbes. O Manchester United, por exemplo, é avaliado em US$ 3,8 bilhões pela revista, mas o seu market cap é de US$ 2,33 bilhões. Mesmo considerando a dívida líquida do clube, o valor chega apenas a US$ 2,9 bi. Um desconto de quase 24%.

Considero que parte disso pode ser explicado pelo valor do controle desses clubes. Ser o controlador de um gigante europeu ou de uma franquia de esportes americanos abre portas e tende a ter um impacto positivo nos demais negócios da pessoa.

Normalmente, são duas classes de ações, uma com um poder maior, na mão dos controladores. No caso do United são duas classes, sendo que a negociada na Bolsa tem 10x menos voting power que a outra.

Além disso, claro que há o impacto do coronavírus. Todas as ligas esportivas do mundo tiveram de impor severas limitações na presença de público nos estádios, sendo que em grande parte delas, os portões seguem fechados – caso da Premier League, da MLB (menos nas finais), da NBA que foi jogada em uma “bolha” em Orlando, e de boa parte dos times da NFL. Na NFL, a liga deixou a cargo dos times a definição sobre a presença ou não do público nos estádios.

O mesmo acontece com a MSG Sports, que tem market cap de US$ 3,7 bi mais uma dívida líquida de menos de US$ 300 milhões, contra um valuation conjunto dos Knicks e dos Rangers de US$ 6,25 bilhões, segundo a Forbes.

Provavelmente, a Forbes considera o valor no Madison Square Garden, que devido a uma cisão que ocorreu há alguns meses, pertence a outra empresa, a MSG Entertainment. Somando o valor da MSGE, chegamos a cerca de US$ 5,6 bi, ainda com um desconto de cerca de 10%.

O Atlanta Braves é o único entre os listados que a soma do market cap da empresa com a sua dívida bate com o valuation da Forbes.

A soma das estimativas da Forbes para o valor do Liverpool e do Red Sox é de US$ 5,4 bilhões. Bem abaixo dos US$ 8 bi que o WSJ disse que o SPAC avaliaria a companhia. Vale mencionar aqui que existem os outros negócios do FSG, como a Fenway Sports Management e a NESN. Mas o principal ativo da NESN é o direito de transmissão dos jogos do Red Sox, o que em tese, deveria estar contabilizado no valuation do clube.

Outro ponto é que me parecem ativos bastante valorizados com perspectiva não muito clara. A MLB não está em seu melhor momento. A popularidade do baseball, mesmo nos EUA, vem caindo. Prova disso é que os primeiros jogos da World Series desse ano, disputados na semana passada, bateram recordes negativos de audiência para a final da liga.

Já o Liverpool pode ter um bom potencial ainda. Ele tem tradição, bastante apelo com o público de outros países, é um dos principais candidatos a atingir a primeira prateleira entre os clubes mundiais em termos de valor de mercado, patamar onde hoje estão apenas Manchester United, Real Madrid e Barcelona. O desempenho do time comandado por Jurgen Klopp tem ajudado e a figura do treinador, o Kloppão da Massa, e as atuais estrelas do time também.

Mas, há apenas alguns anos, times como Chelsea, Manchester City e Arsenal pareciam mais próximos disso e para o Liverpool, parecia normal vender o Sterling para o City, ou o Coutinho e o Suarez para o Barça.

Para reduzir a dependência do resultado esportivo, é importante o clube reforçar suas receitas comerciais, como aconteceu com o United. Nesse ponto, o acordo do clube com a Nike, que pode ajudar bastante, pelo alcance global da marca americana, além disso, o uniforme titular do time ficou bem legal, ao contrário das questionáveis camisas reservas. Especula-se que o deal tenha sido fechado em quase US$ 40 milhões por ano, com adicionais que poderiam elevar bastante esse número.

De toda forma, apesar das lamentáveis temporadas que têm propiciado aos seus torcedores, Manchester United e New York Knicks me parecem opções de investimento mais atrativas do que a nova companhia que pode ser formada caso o SPAC tenha sucesso nas negociações.

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