Ações

Localiza e Unidas: Casamento do ano

Felipe Silveira25/09/2020

Antes do pregão da última quarta-feira (23 de setembro), foi anunciada a fusão das duas principais empresas de aluguel de veículos leves do Brasil. Na verdade, a intenção delas se unirem, mas voltaremos nesse ponto mais adiante.

Uma é a líder no segmento de rent a car, que é como o setor chama o negócio de varejo, com locações normalmente de curto prazo e historicamente muito dependente de viajantes (seja a passeio ou a negócios), mas em um cenário que passa por mudanças importantes.

A outra é a líder no segmento de terceirização de frotas, quando o cliente é uma empresa que faz um contrato de longo prazo. Quer um exemplo? Aqueles carros que os instaladores de TV a cabo usam, que você vê com o símbolo da empresa de telecom, normalmente, são de empresas de terceirização de frotas.

Localiza (a líder no rent a car) e Unidas (número um em gestão de frotas) devem se juntar no que será um deal que mexe com as estruturas do setor.

Antes de entrar nos detalhes do negócio e do que seria a empresa resultante dessa fusão, vou falar do principal risco que esses papéis carregam, após a forte alta (de quase 14% e mais de 17%, respectivamente) que tiveram após o anúncio.

Ele é, a meu ver, o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). A nova empresa oriunda dessa fusão teria praticamente dois terços do mercado de locação de veículos no Brasil. Claro que não temos qualquer informação ainda sobre um possível parecer do órgão, mas não podemos ignorar o risco do acordo ser barrado ou ao menos bastante modificado.

Ele tem algumas diferenças importantes com alguns que foram aprovados sem restrições como a fusão da Fibria com a Suzano, por exemplo, por se tratar de um setor de serviços.

Dessa forma, e aqui entramos no campo da especulação, das suposições, é possível que para o acordo ser aprovado, a nova empresa tenha que vender parte da operação, se desfazer de alguma marca, algo que diminua a sua participação de mercado pós-fusão.

Ainda assim, seria um acordo extremamente relevante.

Entre os principais impactos, talvez o principal seria para as montadoras. E nesse caso, seria um impacto muito negativo.

Uma parte extremamente importante do business de locação de carros é o desconto que as locadoras têm na compra dos veículos, pela quantidade abissal que elas compram anualmente.

Estamos falando de uma frota que atualmente está em 490 mil veículos, juntando as duas empresas, que é renovada regularmente. Nos últimos 12 meses, as duas empresas venderam quase 200 mil carros seminovos, para termos ideia da velocidade de renovação.

Como são, disparadas, as maiores compradoras de carros do Brasil, essas empresas muitas vezes conseguem descontos que ficam entre 20% e 30% em relação ao valor pago por nós, reles mortais.

O desconto da Localiza, como ela comprava mais carros que a Unidas, sempre foi maior. Agora juntas, elas ganhariam ainda mais poder de barganha com as montadoras, que há anos passam por dificuldades no Brasil e são bastante dependentes das empresas do setor. Para as montadoras, com certeza, esse anúncio não foi bem recebido.

Outro efeito positivo é na outra ponta, a da receita. O setor é bastante commoditizado, já que qualquer empresa pode ter qualquer carro em sua frota. Elas normalmente estão presentes nas principais cidades e aeroportos e o nível de serviço não tende a ter um impacto super relevante na decisão de compra, de maneira que vivem em uma constante guerra de preços, algo que pode se reduzir com a união das duas principais empresas. Nesse sentido, até para os concorrentes a fusão não é uma notícia de todo ruim.

Ainda falando de preços, a Localiza tem ferramentas de precificação dinâmica bem avançadas, algo que estava no pipeline de investimentos da Unidas, e vale mencionar também as outras possíveis sinergias: a empresa não precisaria manter duas lojas por aeroporto, duas sedes, e tudo mais.

Apesar das vantagens da união de duas empresas gigantescas, isso poderia significar pouco espaço para crescimento, mas não é isso que estávamos acompanhando nos últimos anos. O setor como um todo vinha apresentando uma evolução interessante (até o início da pandemia, claro) e essas empresas estavam surfando bem esse momento.

No segmento de rent a car, destaco duas tendências. A principal delas é a consolidação dos aplicativos estilo Uber no Brasil, que aumentou muito a demanda por locações com prazos mais longos nesse segmento. A segunda é o modelo de assinatura de carros, ainda relativamente incipiente, mas que é uma das grandes apostas das empresas.

Para ilustrar esse crescimento, “roubei” esse gráfico da apresentação das empresas:

É possível observar que o percentual de motoristas de aplicativos que utilizam os serviços das empresas de locação de veículos já é bem representativo, mas que há espaço para crescimento também.

Já olhando para terceirização de frotas, também há oportunidades:

Primeiro que o market share das empresas é muito menor que no outro segmento, de cerca de 31% considerando o total de veículos. Isso porque é um segmento muito mais fragmentado que rent a car. Não é incomum empresas que são criadas nesse setor para servir apenas um cliente. Além disso, a frota da Localiza e da Unidas representa cerca de 3% do mercado endereçável, que é a frota corporativa total no Brasil.

Agora entrando nos detalhes do deal, ele deve ocorrer por meio de troca de ações das duas companhias. Quem tem papéis LCAM3 vai receber papéis da RENT3, que será a companhia listada na bolsa, o que faz bastante sentido por conta do código bem mais legal, rs.

A relação de troca será de 0,44682380 ação ordinária para cada 1 ação ordinária da Unidas que o acionista tiver. Essa relação pode ser ajustada para eventos como desdobramentos, grupamentos, bonificações e proventos pagos pelas empresas. Mas a Unidas vai poder distribuir até R$ 425 milhões em dividendos sem afetar essa relação de troca, o equivalente a R$ 0,8354 por ação da companhia.

Considerando o preço dos papéis das duas companhias no final do pregão de terça-feira, último antes do anúncio, a relação de troca e o dividendo da Unidas faziam com que a oferta representasse um prêmio de 13% em relação à cotação dos papéis da companhia. No fechamento da sexta (25) ainda existia uma diferença de pouco menos de 9% nos papéis da Unidas em relação ao equivalente em ações da Localiza + dividendo.

Os atuais acionistas da Localiza ficarão com 76,85% da companhia resultante da fusão e os acionistas da Unidas ficarão com os 23,15% restantes. Ainda assim, não haverá um controlador da companhia, já que a Localiza já tinha 78,5% de free float e a Unidas 63,6%. A família Mattar, uma das fundadoras da Localiza, será a principal acionista com 8,5% da empresa.

As empresas esperam que a fusão seja aprovada em assembleias no 4º trimestre e que a conclusão da transação ocorra em algum momento de 2021, a depender das aprovações regulatórias, como já comentei no começo deste relatório.

A Unidas faz parte da nossa carteira recomendada de ações e eu tenho uma visão bem positiva para o setor e para a empresa e também, a princípio, para a empresa que resultaria da fusão.

Disclaimer

Aviso legal

A presente publicação visa única e exclusivamente informar os leitores dos temas apresentados e divulgar as atividades da Capital Research, portanto não deve sob qualquer hipótese ser compreendida como oferta de negociação de títulos, valores mobiliários ou quaisquer outros instrumentos financeiros.

Determinados conteúdos produzidos pela equipe da Capital Research podem constituir "Relatório de Análise", conforme definido no artigo 1º § 1º da Instrução CVM 598/2018. Quando da emissão destes Relatórios, os Analistas de Valores Mobiliários responsáveis pela referida emissão e autores dos conteúdos publicados, declaram expressamente que as recomendações de títulos e valores mobiliários apresentadas constituem estritamente suas opiniões pessoais, elaboradas de forma totalmente independente e autônoma, declarando-se ainda responsáveis pelo cumprimento das obrigações dispostas no Art. 20 da referida Instrução.

As informações apresentadas nos relatórios foram baseadas em fontes públicas e consideradas confiáveis na data de publicação, e estão sujeitas a mudanças, não implicando necessariamente na obrigação de qualquer comunicação pela Capital Research e/ou analistas em relação a tais mudanças.

Os analistas poderão esclarecer dúvidas de seus leitores através de relatórios ou vídeos que serão enviados simultaneamente a estes, sendo sempre mantida e garantinda a isonomia de informações.

Ressaltamos que as decisões de investimentos devem ser realizadas pelo próprio leitor sob sua total e exclusiva responsabilidade. Os resultados e estatísticas anteriores NÃO devem ser interpretados como garantias de ganhos futuros, sendo que de nenhuma forma a Capital Research e seus analistas, expressamente ou implicitamente, garantem algum desempenho ou a ocorrência de ganhos.

Alguns instrumentos de investimentos podem não ser adequados para todos os leitores, uma vez que os relatórios emitidos pela Capital Research, não levam em conta a situação específica e individualizada de cada um, devendo a decisão final sobre a realização ou não do investimento, ser tomada exclusivamente pelo leitor.

A Capital Research poderá alterar o presente aviso legal sob seus próprios critérios, sem que isto implique em necessidade de qualquer comunicação prévia ao leitor.

“Os analistas de valores mobiliários autores do presente conteúdo declaram, nos termos da Instrução CVM nº 598/2018, que as recomendações de títulos e valores mobiliários apresentadas constituem opiniões pessoais, elaboradas de forma totalmente independente e autônoma. Sob tal circunstância, ainda, os respectivos analistas se declaram responsáveis pelo cumprimento das obrigações dispostas no Art. 20 da referida Instrução.”