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Os BDRs chegaram! Por que você NÃO deve entrar nessa onda

Felipe Silveira21/08/2020

Você deve ter lido as notícias do começo do mês dizendo que a CVM alterou as regras de BDRs, ampliando o acesso do investidor brasileiro a ativos estrangeiros, certo?

Mas exatamente por não poder ser acessado sem restrições por investidores não qualificados, os BDRs não são produtos tão conhecidos da grande massa de investidores por aqui. O que pode mudar em breve.

Por isso mesmo, neste relatório vou começar fazendo uma introdução explicando o que são BDRs e depois vou dizer o que as mudanças aprovadas representam, especialmente para o pequeno investidor.

Se você quer saber se é uma boa comprar ações de empresas como Amazon, Facebook e Google direto do seu home broker, sem precisar abrir uma conta em corretora americana, vem comigo!

O que são BDRs?

Um “DR” é um Depositary Receipt, ou seja, um certificado de depósito de valores mobiliários. Em outras palavras, trata-se de um título lastreado em algum valor mobiliário listado em outro país, como uma ação estrangeira, um título de dívida ou um ETF, mas os DRs mais comuns são mesmo os de ações.

Em tese, os DRs dão ao seu dono os mesmos direitos em relação ao seu título original. Eu digo “em tese” porque existem algumas diferenças importantes que vamos falar ao longo desse relatório.

Mas porque estou falando só de “DR” se o que prometi explicar eram os BDRs? É porque o B que antecede a sigla é de brazilian, e só serve para mostrar que eles são negociados aqui no Brasil. Nos Estados Unidos, por exmeplo, existem milhares de ADRs, com A de american, e, inclusive, várias empresas brasileiras listadas aqui na B3 são negociadas nos EUA por meio de ADRs.

Agora que você já sabe isso, é importante saber que existem dois tipos de BDRs: os patrocinados e os não patrocinados.

O que BDRs patrocinados e não patrocinados?

Os BDRs patrocinados são títulos emitidos aqui por uma decisão da própria companhia, que tem especial interesse no mercado nacional e deseja ser listada também no Brasil, captando recursos nesse processo.

Mas, infelizmente, são apenas cinco empresas com DRs patrocinados no Brasil, por enquanto. A imensa maioria, cerca de 550, são BDRs não patrocinados.

Grandes empresas americanas que saltam aos olhos de todo mundo têm BDRs não patrocinados por aqui. Entre elas, as chamadas FAANGs, grupo composto por Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google.

Mas se um BDR patrocinado é aquele em que a própria empresa decide entrar no mercado nacional, você já deve ter uma ideia do que é o BDR não patrocinado, certo?

Bem, para um BDR não patrocinado ser listado na B3 são necessárias duas figuras: o custodiante e o depositário.

O custodiante, como o nome já indica, é quem vai fazer a custódia do ativo em questão no país de origem. Os principais custodiantes de BDRS são o Citibank, o Deutsche Bank e o Bank of New York Mellon. Quase todos os BDRs negociados aqui no Brasil são desses custodiantes.

Além disso, é importante saber que no caso dos BDRs, a B3 definiu os EUA como mercado de origem, por entender que as bolsas americanas têm as regras mais parecidas com as da B3 em termos de governança e transparência.

Por esse motivo, os BDRs da B3 são de ativos listados na NYSE ou na Nasdaq. Se o ativo em questão for originalmente listado em um terceiro país, o que você terá aqui será o BDR do ADR da ação em questão.

Isso significa que, se você quiser ter o BDR de uma empresa listada na bolsa de Shanghai, você não terá exatamente o BDR lastreado na ação dela, mas sim um BDR lastreado no ADR lastreado nesse ativo.

Já o depositário é o responsável pelos programas de BDRs aqui no Brasil. Nesse caso, o principal depositário nacional é a própria B3, por meio do Banco B3, mas o Itaú e o Bradesco também são responsáveis por alguns BDRs.

A função tanto do custodiante, quanto do depositário, é mais burocrática, mas é importante que você saiba que eles existem porque mais à frente, ainda neste relatório, você entenderá como eles te afetam.

Mas, fora isso, ainda há um outro ponto importante! Lembra que eu falei que, em tese, você tem o mesmo direito dos demais acionistas?

Bom, uma diferença clara é a participação nas assembleias da companhia. Você não poderá participar diretamente delas, apenas por meio do custodiante. 

O exemplo Amazon

Para explicar algumas coisas melhor, vamos usar um exemplo real das ações da Amazon. Os papéis da Amazon são listados na Nasdaq, a bolsa americana que é famosa por reunir as principais empresas de tecnologia (apesar de não ter todas e também de contar com empresas de vários outros setores), com o código AMZN. Eles servem de lastro para um título negociado na B3, um BDR, com o código AMZO34.

Então uma certa quantidade de ações da Amazon fica guardada lá com o Bank of NY Mellon, que é o custodiante, e você tem os ativos negociados aqui, mas é importante destacar que a relação entre BDRs e ações não precisa necessariamente ser um para um. Nesse caso mesmo da Amazon, cada BDR AMZO34 negociado na B3 corresponder a meia ação AMZN negociada lá na Nasdaq. Tanto que, enquanto escrevo este relatório, as ações originais valem cerca de US$ 3.300, enquanto os BDRs estão na casa dos R$ 9 mil.

Seja você dono de um BDR que equivale à uma ação inteira ou à uma fração dela, você fica com todos os direitos atrelados àquela quantidade de ativos da empresa. Portanto, se um dia a Amazon decidir pagar dividendos, coisa que nunca aconteceu, o dono do BDR receberá esses dividendos proporcionalmente, se a empresa for vendida, o dono do BDR receberá o valor da venda da mesma forma, e assim por diante.

Existe apenas uma diferença fundamental: tudo o que a empresa pagar é “taxado” pelas instituições que estão intermediando os BDRs em 5%. E você também paga 0,38% de IOF. Além de que, o dividendo, nos EUA, já é tributado.

Isso signigica que, quando a empresa paga dividendos lá fora, você, aqui do Brasil, receberá um valor já descontando o imposto cobrado lá, os 5%  e o IOF, também.

Já quando você vende um BDR, a única transação que acontece é aqui no Brasil. Nos EUA, a ação continua em posse do mesmo custodiante. Então, nesse caso, você só precisa se preocupar com a tributação de ganhos de capital aqui do Brasil, que no caso dos BDRs é 15% de IR, sem a isenção para vendas de menos de R$ 20 mil dentro do mês, como acontece no caso de ações diretamente.

Mas não acaba aí.

Você ainda precisa levar em consideração o custo de corretagem que, nesse caso, não tem segredo: varia de corretora para corretora e você precisa analisar aquela que faz mais sentido para você.

Por último, antes de realmente dar a minha opinião sobre a pertinência dos BDRs, gostaria de destacar que, apesar de estar cotado em reais, o BDR é um ativo em te dá exposição a uma moeda estrangeira, provavelmente o dólar.

Por isso, se os papéis da Amazon subirem 5% em um dia, mas o real se valorizar 10% frente ao dólar, o BDR sofrerá uma desvalorização nesse dia. Pode até ser que tenha alguma diferença mínima no preço dos ativos, mas a cotação do BDR vai obedecer a esses dois fatores: a cotação do ativo original e o câmbio.

O que essa mudança significa?

Agora que eu já te apresentei o que são e como funcionam os BDRs, quero falar um pouco sobre as mudanças que estão acontecendo recentemente.

A CVM sempre restringiu o acesso a BDRs nível 1, caso dos não patrocinados, a investidores qualificados. Isso significa que até hoje, que para comprar BDRs era necessário ter pelo menos R$ 1 milhão em investimentos. Quem não se enquadrava, até conseguia achar esses ativos no home broker, mas não podia negociá-los. O motivo alegado para essa proibição era a maior complexidade desse produto, por envolver a variação cambial, por exemplo, e pelo fato das empresas de fora não seguirem exatamente as mesmas regras de divulgação das empresas brasileiras.

Além disso, uma empresa brasileira que abriu o capital lá fora, como a Stone, a PagSeguro ou a XP não poderiam ser listadas na B3, mesmo por meio de BDRs.

Essas duas coisas mudaram.

A partir de agora, uma empresa brasileira vai poder ter BDRs se suas ações forem negociadas na NYSE ou na Nasdaq. Mas a principal mudança é que qualquer investidor vai ter acesso aos BDRs não patrocinados.

Antes os investidores “comuns” só poderiam ter acesso a esses investimento via fundos que investissem em BDRs, o que impedia que eles fizessem uma gestão própria desses ativos.

O que eu penso de BDRs?

No geral, eu acho que é BDRs não são uma boa opção de investimentos. Eu vejo muitas desvantagens.

Primeiro pelo que eu já comentei.

Os pagamentos em dinheiro feitos para os acionistas são taxados em 5% pelos bancos que vão intermediar a emissão do BDR. É uma mordida pesada. E o spread entre o preço da ação lá fora e o BDR aqui não costuma compensar essa diferença.

Efetivamente você pagará a mesma coisa para comprar uma ação, mas levará 5% menos. Além disso, você demora oito dias a mais para receber o dividendo por meio do BDR, apesar de, na prática, esse atraso fazer pouca diferença.

Além disso, também existem desvantagens em relação aos custos. Tanto na corretagem quanto no pagamento de IR aqui no Brasil.

No caso da corretagem, o ponto é que a imensa maioria das corretoras brasileiras cobra essa taxa, enquanto nos Estados Unidos, as principais corretoras zeraram a corretagem.

É bom que se diga que existe corretora com corretagem zero no Brasil, mas olhando para a maioria dos investidores, eles ainda optam pelo serviço das corretoras que cobram pelas transações.

Já na questão do IR, se você comprar e vender uma ação diretamente através de uma corretora americana, o seu ganho de capital estará isento de imposto se as vendas somarem menos de R$ 35 mil dentro de um mês. Isenção maior até do que se você negociar ações brasileiras aqui na B3. E não há, pelo menos até agora, a isenção do imposto sobre o ganho de capital com BDRs.

Outro ponto importante de ser destacado diz respeito à liquidez: a dos BDRs é muito baixa. Isso deve aumentar com a permissão para não qualificados negociarem os papéis, mas até agora, as ações da Disney, por exemplo, têm uma média de negociação diária de cerca de R$ 1,3 milhão, as ações da Apple de R$ 1,9 milhão e as do Google de R$ 2,4 milhão, para ficar em três exemplos de grandes empresas. Esse valor é equivalente a uma small cap brasileira daquelas bem pouco negociadas.

Além disso, a quantidade de ativos que você tem à disposição através de BDRs é muito menor do que as ações americanas como um todo. São cerca de 550 BDRs contra mais de 4 mil empresas de capital aberto nos EUA. E como as empresas que têm BDRs aqui são as maiores empresas, o potencial de crescimento delas tende a ser menor do que o de empresas mais jovens, que acabaram de abrir capital nos EUA.

Por falar em abertura de capital, por meio de um BDR você não tem a possibilidade de participar de um IPO nos EUA. As empresas já vão chegar no mercado brasileiro com um outro nível de maturidade, o que dá mais segurança, mas limita um pouco o retorno esperado, também.

Dito isso, é bom que se diga que a grande vantagem dos BDRs não é exatamente financeira, mas sim a comodidade que você tem negociando os ativos através da sua conta na corretora brasileira e não tendo que realizar uma operação de câmbio sempre que for enviar dinheiro para corretora americana ou trazer o dinheiro de volta para o Brasil. Além disso, operando direto por meio de uma corretora americana você pode ter um pouco mais de trabalho para declarar os seus investimentos, também.

Mas a principal vantagem dos BDRs é justamente essa: ter menos trabalho, já que, em termos financeiros, a principal vantagem pode ser não ter de pagar o spread que você provavelmente vai pagar no câmbio, o que, no entanto, eu não considero que compense tudo que falei acima.

Dessa forma, é importante que você conheça BDRs e suas principais características, até porque é um assunto que você vai ouvir muito nas próximas semanas, mas eu não considero essa a melhor opção para você investir em ativos no exterior.

Para fazer isso através da sua corretora brasileira, eu prefiro usar ETFs, um instrumento mais barato e que te permite diversificar logo de largada.

Já para fazer o chamado stock picking e escolher as melhores opções entre as empresas americanas, a melhor pedida é mesmo abrir conta em uma corretora americana. Algo que eu vou te explicar com mais detalhes nas próximas semanas!

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