Ações

Quanto vale o show? O setor de entretenimento na bolsa

Felipe Silveira e Samuel Torres, CFA20/04/2020

Resumo do Relatório

  • Setor de eventos ao vivo deve ser um dos últimos (se não o último) a voltar após o período de quarentena
  • Apenas uma companhia listada no Brasil, mas dois players são listados em NY
  • Time For Fun já enfrentava desafios importantes mesmo antes do coronavírus
  • Live Nation é a maior empresa do setor por uma larga margem e controla a Ticketmaster
  • MSG é a dona do Madison Square Garden e tem ativos no novo epicentro da pandemia

A indústria do entretenimento tem tentado se reinventar nesse período de quarentena por conta da pandemia de coronavírus.

O grande destaque, aqui e também no exterior, tem sido as lives no YouTube e no Instagram de artistas do meio musical. Mas, enquanto os sertanejos têm levado milhões de pessoas às suas lives, com patrocínio de grandes empresas, o panorama para as companhias listadas do setor é permeado de incertezas. Isso porque essas empresas têm sua atuação muito centrada em eventos de música ao vivo.

O setor

Na B3, temos apenas uma empresa do segmento, a Time For Fun, que, diga-se de passagem, tem um dos melhores códigos da bolsa: SHOW3. Apesar de pouco representado na bolsa, muito pela sua grande fragmentação, o setor de entretenimento é bastante representativo economicamente. Tanto que os dados mais recentes da Abeoc mostram uma participação de mais de 4% no PIB brasileiro – mas aqui falando de toda a indústria de eventos, contando feiras e eventos corporativos, por exemplo.

Já na NYSE, temos mais duas empresas do setor.

A Live Nation, disparada a maior empresa do segmento. E quando eu digo “disparada”, quero dizer três vezes maior que a segunda colocada, segundo um cálculo feito considerando os dados da Pollstar sobre números de ingressos vendidos na indústria da música em 2019 (tecnicamente, os dados são dos 12 meses anteriores a 20 de novembro do ano passado, uma vez que a publicação sai na virada do ano, mas vamos relevar!).

Além da líder, a MSG, que apareceria lá atrás nesse levantamento (na 48ª posição com 444 mil ingressos vendidos) tem ações na bolsa de NY. Então, vamos falar um pouco do setor e também dessas três empresas.

Globalmente, o setor de mídia e entretenimento é um mercado de mais de US$ 2 trilhões, quase 2,5% do PIB mundial. Especificamente o segmento de música ao vivo, o mais representativo para as companhias listadas, é estimado em pouco menos de US$ 30 bilhões, sendo que pode atingir US$ 31 bilhões em 2022. Segundo uma estimativa da PwC, desse montante, US$ 24 bilhões seriam compostos apenas pelas vendas de ingressos. Essa projeção, entretanto, foi divulgada bem antes de qualquer sinal de coronavírus, então esse panorama fica bem mais incerto.

Em 2019, o mercado de vendas de ingressos para shows foi estimado em US$ 22 bilhões pela Live Nation e vinha mostrando um crescimento de 9% na América do Norte e de 7% no resto do mundo.

Impactos da pandemia

Os impactos no setor de entretenimento ainda são pouco previsíveis, principalmente no segmento de eventos ao vivo, que deve ficar para o final da fila de atividades a serem liberadas pelas autoridades. O motivo disso é, obviamente, a grande concentração de pessoas, muitas vezes em locais fechados.

As ligas de esportes nos EUA afetadas pelo vírus, por exemplo, já estudam, como alternativa, realizarem os jogos em apenas uma cidade, evitando assim as constantes viagens de avião, e sem a presença do público.

Há, inclusive, um estudo recente de membros dos departamentos de epidemiologia e de infectologia de Harvard, divulgado na revista Science, que projeta que, mesmo passado esse período de pandemia mais severa, surtos esporádicos devem continuar ocorrendo. Com isso, medidas intermitentes de isolamento podem ser necessárias até meados de 2022, o que pode significar impactos de médio prazo para o setor.

Aqui no Brasil, a Abrape fez um levantamento que mostra que mais de 51% de todos os eventos programados para 2020 já foram adiados, cancelados ou têm a sua realização ainda não confirmada por conta da pandemia. Segundo a associação, são cerca de 300 mil eventos em risco nesse ano, o que deve gerar um prejuízo bilionário para o setor. Antes do coronavírus, a perspectiva era positiva, de crescimento de mais de 6% nas receitas do segmento, segundo pesquisa realizada com os empresários pela Abeoc.

A Abrape fechou um acordo com a Secretaria Nacional do Consumidor e o Ministério Público para definir as regras para remarcação de shows e eventos. As empresas terão seis meses para remarcar os eventos e 12 meses para realizá-los, sendo que em caso de impossibilidade da (ou das) atração principal, ela pode ser substituída por outra no mesmo estilo e de igual reconhecimento. Uma regra um tanto subjetiva, aliás.

Para os clientes, o acordo dá algumas opções, como:

1. Trocar o ingresso por outro evento da mesma produtora, sem pagamento adicional, desde que a diferença de preço seja menor que 10%;

2. Converter o valor em crédito válido por 12 meses;

3. Pedir a restituição, caso comprove que não pode mesmo ir na nova data.

Além de efetivamente poder usar o novo ingresso ou transferi-lo para um terceiro.

A restituição também é a única opção se houver o cancelamento da atração. Mas, em caso de restituição, a taxa de conveniência pode ser descontada, assim como até 20% do valor, para abater as despesas não recuperáveis do promotor do evento. Vale destacar que as empresas do setor podem ou não aderir a esse acordo.

Funcionamento da indústria

A figura abaixo, formulada pela própria Time For Fun, representa bem a cadeia da indústria de entretenimento ao vivo.

Os managers e agentes negociam em nome dos artistas e a sua fonte de receita é uma comissão em cima dos valores gerados. Os promotores dos eventos são os que contratam os artistas e têm nos ingressos a sua principal fonte de receita. A operação de bilheteria pode ser própria ou terceirizada pelo promotor do evento, através da tiqueteiras, um mercado também extremamente pulverizado no Brasil, mas que vem passando por um movimento de consolidação.

Existe também a comercialização de alimentos, bebidas e merchandising que é bem autoexplicativa, além da operação de casas de espetáculo, que tem no aluguel do espaço a sua principal receita.

Além disso, permeando as diversas etapas da promoção dos eventos, existe a possibilidade de patrocínios, fundamentais para a viabilidade de eventos em diversos segmentos, como teatros, principalmente. Você irá perceber que as companhias listadas operam em diversos elos dessa cadeia.

Time For Fun

UnimedHall

A T4F atua em três segmentos distintos do entretenimento: música ao vivo, peças de teatro e de eventos esportivos. A atuação nos dois últimos segmentos hoje é bem específica, na verdade.

Em peças de teatro, a companhia, que opera o Teatro Renault, na cidade de São Paulo, promove sempre um espetáculo musical na casa. Já em eventos esportivos, a companhia é responsável pela Stock Car, principal categoria do automobilismo brasileiro. Em música ao vivo, a Time For Fun opera mais quatro casas de espetáculos, três no Brasil e uma na Argentina, além de promover diversos shows em outros lugares.

Apesar de promover shows com grandes artistas nacionais e internacionais, que seguem sendo uma importante fonte de receita, a companhia tem focado em ampliar a sua atuação através de festivais de música, para aumentar a previsibilidade dessas receitas. Isso acontece pois a agenda de shows depende de uma série de fatores que fogem do controle da T4F e também porque grandes artistas internacionais tendem a priorizar outros mercados.

O principal exemplo no portfólio da companhia é o Lollapalooza Brasil. O festival, em 2019, reuniu 246 mil pessoas em SP. O total de ingressos para música ao vivo vendido pela T4F no ano passado todo foi de 1,6 milhões, ou seja, 246 mil representa cerca de 15% desse total, com preço bem acima da média, o que faz a sua importância na receita ainda maior. O evento foi um dos afetados e acabou adiado de abril para dezembro, mas mantendo as atrações principais, como o Guns N’ Roses.

Vale mencionar que mesmo antes da pandemia, os resultados da companhia mostravam sinais de alerta, como em 2019, quando a receita caiu de R$ 598 milhões no ano anterior para R$ 394 milhões, um tombo de 34%.

São duas as explicações principais: a redução do número de shows outdoor, aqueles que trazem o maior público, com os artistas mais populares (e com ingressos consequentemente mais caros), e a performance aquém do esperado no teatro. A companhia estava com O Fantasma da Ópera no Teatro Renault e, apesar do aumento de 94% no número de apresentações (o espetáculo estreou em agosto de 2018), o número de ingressos vendidos para esse espetáculo no ano todo foi apenas 20% maior que no período desde a sua estreia até o final de 2018.

A receita de promoção de eventos caiu 47% na comparação anual, mas, como você pode ver no gráfico, as outras operações tiveram uma queda menor, ou até subiram, como no caso de patrocínios. Isso é explicado pela captação para festivais, que foi muito forte.

Além do mais, a tiqueteira da companhia, Tickets For Fun, presta serviços para diversos outros promotores de eventos e dessa forma também performou melhor que a principal linha de receita.

Ainda assim, o Ebitda recorrente da T4F ficou negativo em R$ 5,9 milhões e o prejuízo líquido (também excluindo não recorrentes) em R$ 26,2 milhões.

Mesmo com essa performance mais fraca a companhia tem uma posição financeira extremamente sólida, com caixa de R$ 210 milhões ao final do ano passado e dívida total de apenas R$ 156 mihões. Ou seja, dá para pagar todas as dívidas e ainda sobraria dinheiro.

A principal linha do passivo de curto prazo era exatamente adiantamento de clientes, resultado da venda antecipada de ingressos, com R$ 107 milhões.

Assim, mesmo que a crise seja muito severa para o setor, como é de se esperar, a companhia certamente é uma das mais bem posicionadas para passar por ela. No médio/longo prazo isso pode até ser positivo, tendo em vista que uma parcela considerável dos competidores menores pode não sobreviver a esse período.

De toda maneira, sua baixa rentabilidade recente, mesmo antes do coronavírus, nos deixa pouco confortável com a perspectiva de longo prazo para o potencial de valorização da companhia.

Live Nation

Live Nation banirá o uso de plástico em seus eventos | Beat for Beat

A Live Nation é exatamente uma das prinicpais responsáveis pela tendência declinante do resultado da Time For Fun. A companhia tinha uma parceria com a brasileira para a promoção de shows dos artistas Live Nation no Brasil, mas, em 2017 abriu um escritório por aqui e passou a realizar diretamente a promoção dos espetáculos.

A companhia está presente em 40 países, organizando cerca de 40 mil eventos todos os anos. A Live Nation gerencia a turnê de 4 mil artistas e organiza mais de 100 festivais (incluindo o Rock in Rio) e opera mais de 200 casas de espetáculo, com destaque para a rede House of Blues, nos EUA. Além disso, em 2009, a empresa comprou a Ticketmaster, que hoje opera em mais de 29 países e vende quase 500 milhões de ingressos anualmente.

A Ticketmaster, por exemplo, tem acordo com as principais ligas de esportes americanos, como a NFL e a NBA. O market share estimado da Ticketmaster é de 30%, globalmente.

Os resultados de 2019 da companhia foram positivos, com crescimento de 7% na receita líquida na comparação com o ano anterior, chegando a US$ 11,5 bilhões, fruto do aumento de 8% nas receitas com promoção de shows e de 17% no faturamento com patrocínio. Já a receita das operações como tiqueteira ficaram praticamente flat, com alta de apenas 1%.

Para 2020, a perspectiva era bem positiva também. Até 15 de novembro do ano passado, os shows confirmados para esse ano já passavam de 2,5 mil, um crescimento de 30% em relação ao mesmo momento do ano anterior.

No meio de março, a companhia suspendeu as suas turnês no mundo todo. 8 mil eventos já foram afetados, com mais de 15 milhões de ingressos vendidos. 90% desses eventos foram adiados e 10% efetivamente cancelados, gerando um total de 1,6 milhão de ingressos que certamente precisarão ser reembolsados.

A companhia divulgou que, ao final de fevereiro, sua liquidez total girava em torno de US$ 3,8 bilhões. Além disso, tomou algumas medidas que miram em uma redução de US$ 500 milhões nos custos desse ano e mais US$ 800 milhões em pagamentos adiados para 2021. Entre as medidas estão a redução de salários, sendo que os principais executivos cortaram 50% do salário durante a crise e o CEO vai abrir mão de 100% nesse período.

Consideramos a companhia uma boa opção de investimento, mas com um risco considerável, por isso recomendamos uma exposição bem pequena aos seus ativos. Em caso de aporte, os papéis LYV devem substituir uma parcela pequena da alocação recomendada em IVVB11.

Vale lembrar que nós já preparamos um relatório sobre como você pode investir diretamente em empresas no exterior, que você pode acessar clicando aqui.

MSG Entertainment

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A MSG é uma empresa de entretenimento mais nichada. Ela controla duas empresas, a MSG Sports e a MSG Entertainment.  O Madison Square Garden, que dá nome a companhia, é o principal ativo do braço de entretenimento da MSG.

Em NY, além do Madison Square Garden, a MSG tem outros ativos, como o Radio City Music Hall, o Beacon Theatre e um teatro dentro do MSG, com naming right vendido para a Hulu.

A MSG opera ainda ativos icônicos em outras cidades, como o Chicago Theatre e o Forum em Los Angeles, antiga casa dos Lakers, antes da construção do Staples Center.

A companhia está fazendo o spin off das duas divisões, que começaram a ser negociadas separadamente na bolsa nessa segunda, como já acontece com o braço de mídia da companhia, a MSG Networks. Uma das apostas da companhia é em projetos como o MSG Sphere at the Venetian, em Las Vegas, que você pode ver aqui e aqui, com custo estimado em US$ 1,66 bilhão.

A companhia fecha o ano fiscal no meio do ano, então até dezembro, mostrou receita de US$ 843 milhões, levemente abaixo do reportado no ano anterior.

O lucro líquido também caiu de US$ 49 milhões para US$ 14 milhões. Esse cenário, no entanto, começou a ser revertido no último trimestre com o começo das temporadas da NBA e da NHL, ligas que foram paralisados por conta da pandemia, mas também com um bom desempenho da temporada do Cirque du Soleil no MSG. O número do último trimestre do ano passado veio bem acima das expectativas do mercado.

Apesar da melhora no resultado no último trimestre, o alto investimento no ativo em Vegas acaba trazendo um risco adicional ao papel, especialmente em meio à pandemia, ainda mais pelos principais ativos da companhia estarem localizados em seu epicentro. Por tudo isso, ao menos até que tenhamos uma visibilidade um pouco maior do cenário para esses ativos, recomendamos que fique de fora dos papéis MSGE.

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