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Hello, world! 4 formas de ter ações americanas na sua carteira!

Felipe Silveira09/09/2020

Que o interesse do brasileiro por renda variável tem aumentado, é inegável. Isso fica claro com os números que a B3 tem divulgado mensalmente.

Em julho, o número de investidores ativos no segmento de ações passou de 2,8 milhões pela primeira vez, um crescimento de 130% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Mas há um outro movimento que começa a ganhar força, que é o de pessoas buscando diversificar ainda mais os seus investimentos, se posicionando em ativos estrangeiros.

Neste relatório eu já contei por que eu considero isso uma excelente ideia. Mas, agora, vou listar as principais alternativas para quem quer realizar esse tipo de investimento, com quatro formas de você investir no exterior, com suas vantagens e desvantagens.

Três delas, você consegue fazer a partir da sua corretora atual.

1. ETFs

A primeira, que eu até já adiantei naquele relatório, é por meio de ETFs.

ETF é a sigla para Exchange Traded Funds, ou fundos negociados na bolsa, literalmente. E essa é justamente a principal diferença dos ETFs para os fundos tradicionais. Você negocia os ETFs no seu home broker como se estivesse comprando e vendendo uma ação ou um fundo imobiliário.

Os ETFs que te possibilitam investir em ações estrangeiras na B3 são o IVVB11 e o SPXI11. Eles são ETFs de gestão passiva, ou seja, vão tentar apenas seguir um índice. No caso, os dois fundos têm como objetivo replicar o S&P 500, principal índice de ações americanas, com empresas listadas na NYSE e na Nasdaq, de forma que a performance dos dois tende a ser bem semelhante.

As principais empresas do índice são velhas conhecidas de todos nós: Microsoft, Apple, Amazon, Facebook, Google e Johnson & Johnson, além da Berkshire Hathaway, empresa do lendário investidor Warren Buffett.

A última mudança no índice foi a entrada de duas empresas: a DexCom, do setor de saúde, e a Domino’s Pizza, que tem operação aqui no Brasil também, cujas ações têm performado muito bem neste ano. O interessante é que o mercado tem visto a companhia, não como uma pizzaria, mas como uma empresa de tecnologia que vende pizza. Mas esse é assunto para outro relatório…

A próxima mudança no índice já está definida e foi polêmica. A expectativa do mercado era que as ações da Tesla, do famoso empresário Elon Musk, entrassem no índice. Mas elas ficaram de fora, deixando muita gente frustrada.

De qualquer forma, o importante é saber analisar bem um ETF de gestão passiva como esses. E para isso você deve considerar três características principais:

  1. Qual índice ele busca replicar;
  2. Qual a taxa de administração;
  3. Qual a liquidez do ETF.

Como o IVVB e o SPXI replicam o mesmo índice, sobram as duas outras características para compararmos.

O IVVB11 é um ETF da iShares, gerido pela Blackrock, e cobra 0,23% de taxa de administração por ano, enquanto o SPXI11 é um ETF da It Now, gerido pelo Itaú, com uma taxa um pouco menor, de 0,21%.

Mas a principal diferença entre eles está na liquidez.

O indicador mais utilizado para medir a liquidez é a média de volume negociado de um determinado ativo em um pregão. De um ano para cá, o IVVB11 tem uma média de R$ 49 milhões de negociação por dia, enquanto o SPXI11 tem cerca de R$ 4,5 milhões por dia. É uma diferença considerável. E sabemos que quanto maior a liquidez de um ativo, mais facilidade você terá para vendê-lo sem influenciar muito o preço. Por isso, apesar da taxa de administração, aqui na Capital nós preferimos o IVVB11.

As vantagens dos ETFs são a facilidade para o pequeno investidor acessar o mercado americano e conseguir uma diversificação bem interessante (você só precisa ter uma conta em alguma corretora), além do custo baixo.

Quando a gente fala em custo, um erro comum é pensar que estamos no referindo à cotação do ativo, no caso desses ETFs, cerca de R$ 200. Quando eu falo de custo, estou me referindo à taxa de administração, bem abaixo da média mesmo dos fundos passivos, e à corretagem, que você vai ter de pagar e varia de corretora para corretora.

Aqui vale mencionar que o lote padrão para ETFs é menor que o de ações. Normalmente o lote padrão de ações é de 100, no caso dos ETFs, o lote padrão costuma ser de 10 cotas.

A desvantagem é que você não consegue fazer uma gestão ativa dos seus investimentos no exterior, o chamado stock picking, escolhendo uma carteira diversificada, mas que te proporcione buscar retornos mais altos que o S&P 500.

2. Fundos de ações ou multimercados

Outra forma de você investir em ações do exterior é por meio de fundos de ações ou multimercados que façam isso.

As principais vantagens desses fundos são a gestão ativa e profissional, que te permite buscar retornos acima do índice, e a facilidade de acesso, já que eles estão disponíveis nas principais plataformas de bancos e corretoras.

Já as desvantagens são as taxas que podem ser elevadas, dependendo do fundo, e a limitação que existe para fundos abertos para investidores não-qualificados. Esses fundos podem investir no máximo 20% do patrimônio em ativos no exterior. Já para quem é investidor qualificado, o fundo consegue ter até 100% do patrimônio lá fora, mas só se tiver literalmente “investimento no exterior” no nome e investir no mínimo 67% do PL fora do Brasil.

Além disso, o Rafa, especialista em fundos aqui na Capital, me disse que são poucas opções de fundos, especialmente acessíveis ao pequeno investidor.

3. BDRs

Uma terceira maneira de se investir no exterior sem sair do Brasil é por meio dos BDRs. Um BDR, ou Brazilian Depositary Receipt, é um certificado de depósito de valores mobiliários. Não entendeu do que se trata? Pois é, esses nomes não ajudam muito. Um BDR não é exatamente uma ação, mas digamos que é como se fosse.

Vamos usar as ações da Disney como exemplo. Elas são listadas na NYSE, a bolsa de Nova York, com o código DIS. E não podem ser negociadas diretamente através da B3. Mas elas podem servir de lastro para um título negociado aqui, o BDR.

Isso quer dizer que uma certa quantidade de ações da Disney fica “em um cofre” e quem for dono do BDR fica com todos os direitos atrelados a ela. Então, se a Disney pagar dividendos, o dono do BDR vai receber esses dividendos (as instituições que intermediam esse processo ficam com uma fatia de 5% dos dividendos, é a maneira como elas são remuneradas). Já se a empresa for vendida, o dono do BDR vai ter direito a receber o valor da venda.

Uma vantagem dos BDRs é a possibilidade de uma gestão ativa. Você pode comprar apenas as empresas que achar interessante e não a média do mercado, como no caso dos ETFs. Além disso, também há a facilidade de acesso, já que eles são negociados na B3. O código dos BDRs da Disney, por exemplo, é DISB34 e você negocia por meio da sua corretora brasileira.

Essa vantagem, por sinal, não era para todos, mas as coisas estão mudando.

Antes de explicar direitinho isso, primeiro você precisa saber que existem dois tipos de BDRs, os patrocinados e os não patrocinados. Os patrocinados são emitidos aqui por uma decisão da própria companhia, que deseja ser listada também no Brasil. E são apenas cinco empresas com BDRs patrocinados no Brasil. A grande maioria das empresas americanas que tem BDRs por aqui tem mas versão de BDR não patrocinado.

Acontece que os BDRs não patrocinados só podiam ser comprados por investidores qualificados, então o pequeno investidor sempre ficou impossibilitado de negociá-los. Até por isso, a liquidez desses ativos é bem baixa. Para mudar isso, a CVM e a B3, há algumas semanas, anunciaram que a partir de setembro, os BDRs não patrocinados poderão ser acessados por todos os investidores.

Entre as desvantagens, a principal é que seu dividendo é taxado não só pelo IRS, a Receita Federal americana, mas também pela instituição que emitir o BDR, o que diminui bastante a rentabilidade e atratividade dos BDRs, a depender do quanto você investe através deles.

Além disso, a liquidez segue como ponto negativo dos BDRs. Em média, o BDR da Disney teve apenas R$ 1,3 milhão por dia de negociação. Outras empresas, como Apple e Google, tiveram mais, mas ainda assim foi R$ 1,9 milhão e R$ 2,4 milhões, respectivamente. Para você ter uma ideia de grandeza, esse valor é o equivalente a uma small cap brasileira beeeem pouco negociada.

É claro que isso pode melhorar com o tempo, após a liberação para todos os investidores, mas é algo a se observar. O número de ativos negociados também é apenas uma fração do mercado americano.

Para ver nossa opinião completa sobre os BDRs, confira esse relatório que eu preparei exclusivamente sobre esse assunto. 

4. Corretora americana

A quarta forma de se investir em ativos estrangeiros sem sair do Brasil é abrindo conta em uma corretora americana.

Não são todas, mas muitas corretoras aceitam investidores não residentes nos Estados Unidos. E uma vez que você tenha uma conta em uma corretora nos EUA, você pode negociar livremente diversos ativos americanos, como ações e REITs, o primo gringo do fundo imobiliário, além de vários outros.

A principal vantagem de você abrir conta em uma corretora americana é a oferta muito maior de ativos estrangeiros. Mas quando eu digo muito maior é muito mairo mesmo. São milhares de empresas de todos os tamanhos e setores, diversos ETFs que não necessariamente seguem índices, mas tem uma metodologia definida de gestão passiva (até ETF com gestão ativa você encontra) e o mercado de REITs também é extremamente diverso e interessante.

Além disso, abrindo conta em uma corretora americana você tem a vantagem do custo. Algumas corretoras americanas zeraram a corretagem para a negociação de ações e aceitam investidores não residentes.

Esse é o caso da Charles Schwab e da TD Ameritrade, por exemplo. No ano passado, a Schwab comprou a TD Ameritrade, mas elas continuam operando separadamente e até com regras diferentes. A Charles Schwab, apesar de aceitar investidores não residentes nos EUA, limita essas contas a um depósito mínimo de US$ 25 mil dólares. No caso da TD Ameritrade não há limite mínimo.

Para abrir uma conta na TD é bastante simples. Eu fiz o teste em cada corretora americana disponível para brasileiros e, nesse caso, me chamou a atenção (negativamente) as opções para envio de documentos (apenas fax ou correio), mas entrando em contato com o suporte, eles disponibilizam um link para envio de documentos online sem maiores problemas.

Além disso, para quem faz questão de atendimento em português, também há opções, como a Avenue e a Passfolio.

Também testei o processo de abertura de conta nas duas e posso adiantar que é bem simples.

As duas também oferecem corretagem zero. A Passfolio para todas as ordens e no caso da Avenue, ela lançou recentemente dois planos: o premium e o zero. No plano zero, você tem corretagem zerada para 10 ordens por mês. Já no plano premium, a corretagem vai de US$ 1,00 por ordem até US$ 8,60 por ordem.

Mais dois pontos para se atentar:

Primeiro você vai precisar transferir o dinheiro para a corretora americana para investir lá. As duas com suporte em português, oferecem isso na plataforma de forma simples. Já se você escolher a TD Ameritrade, por exemplo, ou mesmo se preferir não usar esse serviço da Avenue ou a Passfolio, vai ter de fazer pelo seu banco, por uma casa de câmbio, opções que costumam ser mais caras, ou por uma plataforma online de remessas, como a Remessa Online e a Transfer Wise, que costumam ser mais vantajosas.

Outro ponto é a tributação. Você vai ter de declarar e pagar impostos nos EUA e no Brasil. Logo de cara, você vai precisar preencher um formulário chamado W-8, da Receita americana. Algumas corretoras o preenchem automaticamente com as informações que você disponibilizou para abrir a conta.

Além disso, nos EUA, há uma espécie de FGC que protege o seu dinheiro e ativos nas corretoras. O nome dessa instituição é SIPC – Securities Investor Protection Corporation, o que pode ser traduzido para algo como corporação de proteção ao investidor de ativos mobiliários. Ela garante até US$ 500 mil em ativos em dinheiro, mas limitado a US$ 250 mil se for apenas dinheiro que você tiver na conta. Então confirme se a corretora que você escolher é membro do SIPC e da Finra. Para isso, você pode usar o Broker Check.

Minha sugestão

Agora que você conhece as principais opções para investir em ativos estrangeiros, vou dar a minha opinião sobre eles.

No caso dos BDRs, a baixa liquidez e, principalmente, as comissões em cima dos dividendos os tornam opções pouco atraentes. Além disso, você paga a corretagem como paga para comprar ações brasileiras, dependendo da sua corretora. E ainda existe a limitação de ativos, que pode não parecer, mas é um ponto relevante. Você nunca vai poder participar de um IPO, por exemplo.

Já os fundos poderiam ser opções interessantes, mas a limitação de exposição para fundos abertos para investidores não-qualificados e, em alguns casos, as taxas de administração e performance elevadas, também são fatores que pesam bastante contra.

Dessa forma, para mim, as melhores opções para o investidor brasileiro são os ETFs e o investimento direto por meio de uma corretora americana.

ETFs cumprem bem o básico: tem um custo baixo, oferecem diversificação e facilidade. Já nas corretoras gringas você vai ter acesso a todos os ativos do maior mercado do mundo também a um custo baixo. Com ETFs, você tem bem menos trabalho e com as corretoras americanas você pode escolher exatamente os ativos da sua carteira. E aí a melhor escolha depende apenas da sua preferência!

Bom, por hoje é isso. Caso tenha dúvidas, é só nos mandar uma pergunta no atendimento@capitalresearch.com.br ou por meio do Instagram ou LinkedIn.

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