Finanças Pessoais

ūü§ę Shh! A infla√ß√£o est√° dormindo. O que fazer se ela acordar?

Samuel Torres, CFA13/08/2020

O ser humano tem uma tendência de dar mais peso para aquilo que aconteceu no passado recente.

Tem até um nome para isso. Chama-se viés de disponibilidade (availability bias).

Nos √ļltimos anos, a infla√ß√£o se manteve bem controlada e esse foi o principal motivo para a taxa Selic ter sido continuamente reduzida, at√© chegar ao patamar atual de 2,00% ao ano.

Olhando para o que est√° acontecendo agora, a expectativa √© que o IPCA de 2020 fique na casa dos 1,6%, abaixo do piso da faixa alvo do Banco Central, em grande parte em fun√ß√£o da grave crise econ√īmica pela qual estamos passando.

Afinal, se as pessoas não estão dispostas a gastar (em muitos casos, não têm nem dinheiro para tal), como é que as empresas, comércio etc. vão aumentar os preços?  

Com isso, tenho a impressão de que muita gente não se preocupa mais com a inflação, principalmente quando estamos falando da montagem de sua carteira de investimentos.

Mas será que esse risco desapareceu mesmo e você pode ignorá-lo ao decidir a composição de seu portfólio?

A minha opinião é que não.

Por que devo me preocupar com a inflação?

Meu primeiro ponto é que não temos certeza nem sobre quanto será a inflação nos próximos 12 meses, quanto mais em relação aos próximos anos.

D√° uma olhada nesse gr√°fico abaixo.

Eu peguei a mediana das proje√ß√Ķes do IPCA levantadas pelo Banco Central no Relat√≥rio Focus (teoricamente s√£o os melhores economistas do Brasil) feitas no in√≠cio de cada ano desde 2010 e coloquei do lado o efetivamente IPCA realizado.

Você verá que teve anos que ela ficou bem acima, outros um pouco abaixo.

 

Isso pode te parecer pouco, mas no acumulado desses 10 √ļltimos anos a infla√ß√£o realizada foi quase 10 pontos percentuais mais alta do que o projetado. Um “erro de c√°lculo” que pode te custar bastante.

E o segundo motivo √© a emiss√£o da nova nota de R$ 200 ūüźē.

Brincadeira! Isso foi só uma desculpa para usar o emoji do vira-lata caramelo. Apesar do que tem gente falando por aí, não acho que a emissão dessa nota seja um sinal de que o Banco Central acredite que a inflação tenha saído do controle.

O outro motivo verdadeiro é o descontrole dos gastos do governo.

Neste outro relat√≥rio eu entro em bem mais detalhes, mas o ponto central √© que, se ocorre um aumento significativo de moeda em circula√ß√£o ‚Äď que √© o que acontece quando o governo “imprime” dinheiro para financiar o aumento de gastos ‚Äď sem uma eleva√ß√£o equipar√°vel da produ√ß√£o de bens e servi√ßos (ou seja, PIB), o resultado √© que o nosso dinheiro passa a valer menos.

A perda do poder de compra do dinheiro é justamente a inflação. Signigfica que são necessários mais reais para comprar a mesma quantidade de produtos ou serviços.

No come√ßo desta semana, coincidentemente (ou n√£o ūü§Ē), postei no meu Instagram sobre o livro O que o governo fez com o nosso dinheiro?, que eu tinha acabado de ler e que trata do impacto inflacion√°rio da impress√£o de moeda pelos governos.

O autor do livro, Murray Rothbard, dá um exemplo interessante (na verdade proposto por David Hume): suponha que, da noite para o dia, uma fada entrasse em nossas carteiras, cofres e nos bancos de dados dos bancos (essa eu acrescentei, pois na época ainda não havia computadores) e duplicasse todo o dinheiro existente.

O que aconteceria? Todo mundo ficaria duas vezes mais rico?

N√£o, pois, segundo as palavras do pr√≥prio autor ‚Äúo que nos torna ricos √© uma abund√Ęncia de bens, e o que limita tal abund√Ęncia √© a escassez de recursos para produzi-los: a saber, terra, trabalho e capital. Multiplicar a quantidade de dinheiro n√£o faz com que tais recursos deixem de ser escassos e se materializem milagrosamente‚ÄĚ.

A consequência disso seria que, à medida que as pessoas saíssem correndo para gastar essa nova riqueza, os preços iriam aumentar. E isso é a inflação.

O que estamos vendo no Brasil agora é justamente um aumento de gastos do governo, teoricamente pontuais e justificados pela pandemia, mas que ninguém tem certeza se ou quando serão estancados.

J√° sa√≠ram not√≠cias sobre a inten√ß√£o do governo de prorrogar at√© 2021 o estado de calamidade que permite o descumprimento de regras fiscais, ao mesmo tempo que o presidente Jair Bolsonaro j√° declarou inten√ß√£o de cumprir o teto de gastos que imp√Ķem esse limite.

De um jeito ou de outro, como eu disse lá em cima, enquanto a economia ainda está extremamente debilitada, não há preocupação de inflação. Quem tem dinheiro está economizando, pois o futuro ainda é muito incerto.

Mas e quando as coisas melhorarem? Da√≠ pode ser que a infla√ß√£o acelere…

Como expliquei no relat√≥rio que citei h√° pouco, existem economistas que acreditam que se a ‚Äúimpress√£o‚ÄĚ de moeda for cortada no momento certo, a infla√ß√£o fica sob controle. O dif√≠cil √© identificar a tempo esse momento exato.

Em resumo, eu acho importante que você ainda tenha parte de sua carteira de investimentos te protegendo de uma eventual aceleração da inflação. E agora vou falar que ativos podem te auxiliar nesse fim.

Onde investir para se proteger da inflação

Títulos de renda indexados à inflação

Esses s√£o os ativos que oferecem a melhor prote√ß√£o contra o aumento da infla√ß√£o, uma vez que sua rentabilidade est√° diretamente atrelada a um √≠ndice inflacion√°rio. Por√©m, isso s√≥ √© v√°lido quando mantido at√© o vencimento, pois se resgatado antecipadamente o seu pre√ßo vai depender das condi√ß√Ķes de mercado, como explico melhor neste outro relat√≥rio.

Além disso, se for um título de crédito privado, a proteção é menor, pois existe o risco de crédito. E a situação financeira de muitas empresas pode ser impactada negativamente se houver uma aceleração forte da inflação (se a empresa não consegue repassar o aumento de custos para os preços de seus produtos, sua margem de lucro é comprimida), elevando o risco de crédito (calote).

Obviamente, se o devedor não pagar, sua preocupação irá além de apenas se proteger da inflação.

Ent√£o, se quiser o mais seguro, v√° de Tesouro IPCA+.

Títulos de renda fixa pós-fixados

Normalmente esses títulos são bons em te proteger da inflação no médio e longo prazo, pois apesar de não haver uma amarração direta com algum índice de inflação, como é o caso dos títulos indexados, as taxas de juros tendem a ser elevadas quando a inflação acelera e o esperado é que sejam superiores à inflação.

 

Entretanto, o movimento n√£o √© simult√Ęneo e pode haver per√≠odos em que eles rendam abaixo da infla√ß√£o, que ali√°s, √© justamente o que est√° acontecendo com a maioria dos t√≠tulos p√≥s-fixados no momento atual, com a taxa Selic em 2,00% ao ano.

Se você quiser se aprofundar, neste outro relatório eu comento o que fazer neste momento de taxas de juros tão baixas.

Fundos de investimento imobili√°rio

Já os fundos de investimento imobiliário são bons em proteger seu portfólio do aumento da inflação quando estão com alta taxa de ocupação, os contratos de aluguel dos imóveis são contratualmente corrigidos pela inflação, os imóveis são de boa qualidade e os inquilinos apresentam solidez financeira.

Por isso, é muito importante avaliar fundo a fundo.

Se você coloca o dinheiro em um FII que só tem um ativo com um inquilino e esse resolve rescindir o contrato, seu dinheiro não estará protegido pela inflação.

O mesmo vale para o caso de os inquilinos serem (ou haver grande risco de passarem a ser) maus pagadores.

Al√©m disso, no curto prazo, os pre√ßos dos FIIs podem ter alta correla√ß√£o com a√ß√Ķes, o que tamb√©m pode atrapalhar na prote√ß√£o contra a infla√ß√£o.

A√ß√Ķes

A√ß√Ķes n√£o s√£o t√£o boas em proteger contra a infla√ß√£o. Sua efetividade depende bastante da capacidade das companhias de repassar o aumento dos pre√ßos para seus clientes, o que varia bastante conforme o setor e o momento da economia.

Na situação atual, por exemplo, como já comentei lá no começo, está bem difícil para a maioria das companhias repassar o aumento de custos para os preços de seus produtos/serviços.

No longo prazo, as a√ß√Ķes t√™m uma boa capacidade de prote√ß√£o contra a infla√ß√£o, mas muito mais porque seus retornos tendem a superar a infla√ß√£o do que por ter alguma correla√ß√£o positiva com ela.

Commodities

Algumas commodities, como aquelas ligadas a energia (como petróleo) e metais (como ouro), historicamente apresentam uma relação positiva com a inflação, até porque muitas vezes o próprio aumento de preços dessas commodities causa a inflação.

O problema é que investir diretamente em commodities, apesar de ser interessante do ponto de vista de diversificação, não costuma resultar em bons retornos no longo prazo.

Dessa maneira, não considero o investimento puro em commodities uma boa opção para se proteger da inflação.

Títulos de renda fixa prefixados

Cuidado! Esses títulos não oferecem nenhuma proteção contra o aumento da inflação. Na verdade, eles são diretamente prejudicados pela aceleração da inflação, uma vez que pagam uma taxa de juros fixa.

Por isso, acho bastante arriscado investir em títulos prefixados com vencimentos mais longos que 2 ou 3 anos no momento. Se a inflação no período acelerar e superar a rentabilidade do título, mesmo que você o tenha mantido até o vencimento, seu poder de compra será menor do que no momento da aplicação.

Mas isso n√£o quer dizer que eles sejam ruins.

Eles são bons para diversificar o portfólio.

No primeiro gráfico que eu te mostrei aqui, pode-se notar que os economistas muitas vezes subestimam a inflação, mas, às vezes, eles também a superestimam. E quando isso acontece, a rentabilidade real (descontada a inflação) dos títulos prefixados acaba sendo maior do que a prevista no momento da aplicação.

Por sinal, é exatamente o que está acontecendo este ano. Olha só como andou a previsão do IPCA de 2020 desde o começo do ano passado:

 

Esse √© apenas mais um exemplo de que n√£o d√° para confiar cegamente em proje√ß√Ķes.

Desse modo, assim como não acho uma boa apostar todas as fichas de que a inflação vai ficar baixa para sempre, também não acho uma boa não ter nenhuma proteção caso ela fique mais alta do que se está prevendo hoje.

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