Finanças Pessoais

A crise bate à porta: agora é um bom momento para comprar ouro?

Samuel Torres, CFA15/10/2020

Há alguns meses, escrevi esse relatório explicando a efetividade de se manter dólar e ouro na carteira como maneira de proteção.

Com o aumento da volatilidade nas últimas semanas, surgiram questionamentos quanto a se valeria a pena comprar ouro agora.

Naquele relatório, minha conclusão foi que manter ouro em dólar (com hedge cambial) ou apenas dólar não eram boas opções, pois, individualmente, seus retornos no longo prazo tendem a ser relativamente baixos.

Outras duas opções que avaliei foram o ouro em real e o S&P 500 em real. Essas posições, além de se beneficiarem, respectivamente, da valorização do ouro e do S&P 500, também ganham com a valorização do dólar em relação ao real.

A minha conclusão foi que, apesar de uma posição em ouro em real ser muito boa do ponto de vista da relação risco/retorno, no longo prazo tende a ter um retorno inferior ao do S&P 500 em real, a não ser que o investidor seja muito bom em acertar os momentos de comprar e vender o ouro. Além de ser bastante difícil realizar esse market timing, há também o impacto negativo em termos de Imposto de Renda.

Dessa maneira, minha indicação foi: i) para quem não se preocupa tanto com as oscilações de curto prazo de sua carteira, utilizar o S&P 500 em real (através do IVVB11) como proteção para o resto do portfólio e ii) para quem se importa mais com a volatilidade da carteira, aplicar uma parte da carteira em ouro em real junto com uma posição em IVVB11.

Só ressaltando que nessa análise estou levando em consideração estritamente risco do ponto de vista de volatilidade. Porém o ouro apresenta fundamentos diferentes do IVVB11 que podem fornecer proteção adicional, como por exemplo, no caso de um enfraquecimento da dominância global americana, o que impactaria negativamente a posição em ações americanas. Mas isso é assunto para outro relatório.

O que aconteceu desde o início da pandemia, é que a correlação entre a maioria dos ativos aumentou, inclusive entre ações e ouro, como como pode-se observar abaixo, o que diminuiu o benefício da diversificação.

 

Mas é importante ressaltar dois pontos:

1) É normal que ocorra o aumento das correlações em períodos de crise, quando os investidores “fogem” de todos os ativos de risco e buscam liquidez;

2) Risco não é igual volatilidade e diversificação não é igual correlação.

É preciso entender os fundamentos por trás de cada ativo, de maneira que mesmo que a correlação do ouro com ações tenha aumentado, não significa que não sirva mais de diversificação e proteção.

Eu explico em mais detalhes esses pontos nesse outro relatório.

Contudo, ainda assim, não acho que agora seja um bom momento para montar uma posição em ouro. Mesmo em termos reais (descontando a inflação), o ouro está próximo da máxima histórica. Como Howard Marks explica bem em seu livro The Most Important Thing, quanto maior o preço de um ativo, maior o risco.

Fonte: Gold, the Golden Constant, and Déjà Vu

 

Claro que o que aconteceu no passado não necessariamente se repetirá no futuro, mas como Claude Erb, Campbell R. Harvey e Tadas Viskanta apontaram no artigo Gold, the Golden Constant, and Déjà Vu, nas duas últimas vezes em que o preço real do ouro esteve tão alto quanto agora, em janeiro de 1980 e agosto de 2011, o preço do ouro caiu 55% e 28%, respectivamente, nos 5 anos subsequentes.

Além disso, é sempre bom lembrar que o ouro só serve de proteção contra questões de escala global, Contudo, mais recentemente, como explico nesse outro relatório, os maiores riscos estão relacionados ao cenário doméstico, de maneira que apenas a parte em dólar (e não o ouro + dólar) ajudaria na proteção.

Apenas por curiosidade, o que será que teria sido melhor fazer em março, comprar ouro ou S&P 500?

Depende da data do investimento. Peguei duas datas de corte. Primeiro em 2 de março de 2020, logo depois da primeira queda relevante dos preços das ações. O segundo corte fiz em 19 de março, depois do pior momento da crise.

Do dia 2 de março até 13 de outubro, o investimento de maior retorno foi o ouro em real (+49,1% no período), seguido pelo S&P 500 em real (40,3%).

Mas quem não acertou o melhor momento de comprar ouro, e o fez apenas em 19 de março, obteve uma performance inferior. Nesse período, o ouro em real valorizou 39,7%, ao passo que o S&P 500 em real subiu 58,3%.

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