Finanças Pessoais

5 passos para organizar suas finanças (e começar a investir)

Samuel Torres, CFA30/07/2020

Eu já te dei motivos para economizar e começar a investir. Já te ajudei a calcular quanto você precisa juntar para sua aposentadoria. Mas eu sei que saber isso, muitas vezes, não é o suficiente.

Para romper a inércia que nos prende a uma vida financeira descontrolada, o próximo passo é, efetivamente, tomar medidas práticas.

Para isso, recomendo primeiramente organizar suas finanças pessoais. Saber quanto ganha, quanto gasta e fazer um planejamento que te permita criar o hábito de investir.

O objetivo deste relatório é te ajudar exatamente a fazer isso, explicando passo a passo como organizar sua vida financeira para te auxiliar a começar a guardar dinheiro e investir – ou, quem sabe, guardar e investir ainda mais!

Eu vou tentar ser o mais didático possível (por isso até preparamos um infográfico para você), mas você já sabe que, tendo qualquer dúvida, é só nos mandar uma pergunta no atendimento@capitalresearch.com.br ou por meio do Instagram ou LinkedIn.

Agora vamos ao que interessa:

1º passo: saber quanto ganha

No Brasil, nós temos uma cultura de não se falar de dinheiro. É feio, por exemplo, perguntar quanto uma pessoa ganha. Mas nós aplicamos esse raciocínio, muitas vezes, com a gente mesmo e acabamos nos prejudicando.

Eu te pergunto, então: Você sabe efetivamente quanto cai na sua conta todo mês? E no ano? E o que não cai na conta?

Uma pessoa que tem um salário bruto de R$ 5 mil por mês, por exemplo, só recebe aproximadamente R$ 4.084, em função dos descontos de impostos e encargos. É quase 20% menos.

Esse simples fato, tantas vezes ignorado, já é responsável por boa parte dos problemas financeiros em que nos metemos. Muita gente acha que ganha mais do que realmente ganha. 

Além disso, para calcular os rendimentos anuais não basta multiplicar o salário líquido por 12, uma vez que, para muitos, há o 13º e o adicional de férias, entre outros benefícios.

Alguns sites nos ajudam a calcular o salário líquido anual. Eu não vou indicar nenhum específico, mas recomendo dar uma procurada no Google, é bem fácil de achar.

Mas não acaba aí também, se, como falamos, a empresa onde você trabalha lhe oferece outros benefícios financeiros, como vale refeição e/ou vale alimentação, é importante colocar na conta também. Afinal, esses benefícios são utilizados para arcar com parte de suas despesas.

Já para quem é autônomo ou tem um grande percentual dos rendimentos variável (ex: vendedor comissionado), a indicação é fazer uma projeção realista.

Nesse caso, vale a pena olhar para o histórico e refletir se aqueles meses ou anos muito bons ou ruins devem se repetir ou se foram exceções.

Esse não é o tema desse tópico, mas minha recomendação para quem tem uma renda menos estável é manter uma reserva de emergência um pouco maior.

Geralmente recomenda-se uma reserva de emergência de seis a 12 vezes o gasto mensal recorrente, então quem tem uma renda muito variável deveria estar mais próximo dos 12 do que dos seis.

E, claro, nada impede que você tenha uma reserva ainda maior, se é o que te deixará tranquilo. Só é importante entender que uma reserva muito grande vai reduzir o retorno esperado de sua carteira total de investimentos.

Ainda nesse tópico “saber quanto ganha”, uma pergunta muito comum é se bônus e participação nos lucros (PLR) devem entrar na conta.

A resposta aqui é parecida com a indicada para quem tem uma renda muito variável: considere um valor realista e factível, sempre considerando o valor líquido de impostos e encargos.

Se você não faz ideia de quanto vai ganhar ou se vai ganhar alguma coisa, uma postura mais conservadora é simplesmente não considerar valor nenhum. Afinal, é melhor ter uma surpresa positiva do que ter que correr atrás de um dinheiro previsto que não veio.

Ainda sobre isso, vou falar sobre despesas no próximo tópico, mas idealmente não se deve atrelar despesas a rendas muito incertas – do tipo comprar um carro ou uma mega viagem hoje na expectativa de receber aquele bônus/PLR daqui a seis meses.

E se o bônus/PLR vier muito abaixo do esperado, você vai ter dinheiro para continuar pagando as parcelas? Se não, vai tirar dinheiro de onde?

Uma boa consequência de não contar com o dinheiro do bônus (para quem pode e tem disciplina) é usá-lo todo (ou a maior parte) para investir.

Porém, tome cuidado para também não deixar para investir só o que vier do bônus/PLR, porque em anos ruins pode acontecer de você não guardar quase nada. E isso não é bom nem para os seus rendimentos, nem para sua disciplina.

Talvez você tenha alguma outra fonte de renda que não citei aqui, mas a ideia é você levantar realisticamente quanto você tem de renda no ano e como ela está distribuída mês a mês.

2º passo: saber quanto gasta

É nesse passo que muitos se surpreendem ao perceber o quanto gastam com determinadas coisas.

Para entender melhor seus gastos, uma dica fundamental é segmentá-los por categorias, como alimentação, moradia (aluguel, condomínio, IPTU, água, energia, internet), mercado, educação, celular, transporte, lazer, viagens, dívidas etc., anotá-los (com a data do gasto) e acompanhá-los.

Eu repito: se você nunca fez isso, faça e você vai se surpreender!

Dito isso, vale explicar que não existe uma regra definida para quantas categorias criar na hora de segmentar seus gastos. Por exemplo, viagens deveriam estar dentro de lazer? Em mercado você deveria criar categorias segregadas para produtos de alimentos, limpeza e higiene pessoal?

O quão detalhista você vai ser na criação dessas categorias deve ter uma relação com a relevância dentre o total de seus gastos.

Se os seus gastos com mercado são muito relevantes, talvez valha a pena começar a acompanhar de forma mais granular, como a que sugeri acima. Mas se não são, tornar tudo muito específico pode acabar te desmotivando, porque você vai esquecer de anotar coisas muito pequenas e pode acabar com preguiça de correr atrás de tudo.

Para facilitar esse processo de anotar e acompanhar, existem diversos aplicativos de celular. Em alguns é preciso incluir e classificar manualmente cada gasto, enquanto outros conectam diretamente à conta do seu banco e puxam e classificam os dados automaticamente ou semi-automaticamente.

Como são muitos apps e esse relatório já está ficando grande, vou deixar para outro momento comentar sobre os apps que mais gosto para controlar os gastos. Até porque usar um app não é obrigatório. O importante é que, de alguma maneira, você consegua ter uma boa noção de quanto gasta recorrentemente e com o quê.

Se você preferir usar uma planilha Excel ou um caderno e conseguir se organizar assim, está ótimo!

Mas lembre-se de levar em consideração os gastos recorrentes e os nem tão recorrentes assim, mas que considerando um prazo maior, acabam se repetindo. Por exemplo, você provavelmente paga todo mês a conta do seu celular. Mas, de quanto em quanto tempo troca de celular?

Tem gente que troca todo ano. Alguns a cada cinco. Mas, em algum momento você vai ter esse gasto.

A mesma coisa vale para roupas e diversos outros itens que não se compra todo mês.

Você viaja uma vez por ano?

Tem filhos e tem que comprar material escolar todo começo de ano?

E o IPVA, lembrou?

Tudo isso tem que ser levado em consideração para calcular o quanto você gasta por ano e entender como isso está distribuído mês a mês.

3º passo: analisar e reavaliar os gastos

Agora que você sabe quanto e com o que gasta, é hora de avaliar e cortar os excessos.

Sim, eu sei. Essa é a parte do sacrifício mesmo.

Em algunas casos, é necessário cortar poucos gastos, mas que são bem relevantes.

Em outros casos, vale mais a pena cortar pequenos gastos, mas recorrentes, que quando somados totalizam um valor significativo.

Nesse período de isolamento, por exemplo, você não deve estar gastando mais com aplicativos de transporte, mas e antes da pandemia? Você chegou a ver quanto davam todas as corridas no seu cartão?

Um ponto que considero extremamente importante nesse tópico é que o gasto que deve ser considerado relevante por você tem uma relação direta com a sua renda pessoal.

Por exemplo, será que faz sentido para alguém que tem uma renda líquida anual de R$ 24 mil comprar um celular de R$ 5 mil todo ano no lançamento?

Ainda não sei se é uma boa, mas para uma pessoa que tem uma renda anual de R$ 200 mil, por exemplo, esse gasto seria bem menos relevante.

A ideia aqui não é, como dizem, cortar “até o cafezinho”. Mas, esse é um bom momento para entender quais são os principais gastos que afetam seu orçamento e avaliar se haveria uma maneira de reduzi-los.

Em muitos casos, não é preciso cortar o gasto em si, mas existe uma maneira de gastar menos.

Voltando ao exemplo do celular, se você faz questão de trocar de modelo todo ano, você pode se planejar para trocar seis meses depois do lançamento, quando os preços chegam a cair mais de 20% em relação ao preço inicial.

Por isso é importante fazer bem feito o 2º passo. É através dele que se torna possível identificar quais são seus principais gastos e ir atrás daqueles que são realmente relevantes para você.

4º passo: criar um orçamento e definir metas

Feito isso, agora é hora de planejar o futuro, fazendo um orçamento.

Não se assuste pelo nome! Na verdade esse passo é relativamente simples. Trata-se, em grande parte, de agregar tudo o que você levantou e definiu até aqui, fazer uma projeção e definir metas.

Você pode fazer para o ano fechado (ex. 2020) e atualizar uma vez por ano ou para os próximos 12 meses e ir atualizando todo mês.

Comece projetando mês a mês o quanto espera receber de renda líquida, conforme as informações que levantou no 1º passo.

Em seguida, faça a mesa coisa com as despesas, já considerando as reduções de gastos que você definiu que vai fazer no passo anterior.

Agora você consegue saber quanto deve sobrar ou faltar mês a mês no seu orçamento pessoal.

Faltou dinheiro? É hora de revisitar suas despesas, começando pelos itens mais relevantes, e reavaliar o que é possível reduzir ou cortar.

Outra alternativa é tentar aumentar sua renda, mas, além de ser mais difícil e demorado, depende muito das habilidades pessoais de cada um.

Feito isso, uma boa tática é ver o valor médio que sobra e definir uma meta de economia mensal que deve ser aportada em seus investimentos. Essa é uma maneira fácil de criar o hábito de investir.

É quase como se fosse mais um gasto obrigatório mensal. Só que, ao invés de gastar, você estará investindo esse montante para utilizar no futuro.

Para finalizar esse item, faço uma ressalva das mais importantes: se você tiver alguma dívida a melhor coisa a se fazer é pagá-la antes de começar a investir, pois os juros bancários normalmente são muito maiores do que o quanto o seu dinheiro vai render.

5º passo: acompanhar e revisar as premissas

Feito seu orçamento, é importante acompanhar se o realizado está próximo do que você tinha projetado.

Se não estiver, é fundamental que você identifique a razão e tente corrigi-la rapidamente.

Se for algum gasto não previsto, avalie se ele deve se repetir para incluir no orçamento e avaliar o impacto. Mas se for algo realmente pontual, lembre-se que a prioridade é pagar as dívidas antes de qualquer outra coisa e siga em frente.

De qualquer forma, ainda que você esteja conseguindo cumprir seu orçamento à risca, é importante revisitar todos os passos pelo menos uma ver por ano para verificar se houve alguma mudança.

Pode ser que algo no seu contexto de vida tenha mudado para melhor ou para pior. Acontece.

Se tiver recebido um aumento salarial, por exemplo, é extremamente recomendado adicionar uma boa parte do aumento à sua meta de economia e investimentos. Dessa maneira, os seus aportes vão acompanhando sua progressão salarial, o que facilita que na lá na frente você consiga se aposentar com uma mesma qualidade de vida.

Mas surgiu alguma despesa nova? Mudou seus planos? Planeja ter um filho? Fazer uma compra relevante? Adicione ao seu orçamento e avalie os impactos!

É com planejamento que conquistamos nossos objetivos.

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Espero ter contribuído para que você consiga organizar melhor seu orçamento pessoal e, mais importante ainda, para que, com isso, você consiga passar a economizar e investir mais.

Mas reforço o convite, caso tenha alguma dúvida, é só nos mandar uma pergunta no atendimento@capitalresearch.com.br ou por meio do Instagram ou LinkedIn

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