Renda Fixa

Entendendo os principais títulos de Crédito Privado

Samuel Torres, CFA15/09/2020

Recentemente, falei sobre os principais riscos de investir na renda fixa e como os preços dos títulos de crédito privado que aparecem no extrato da sua conta podem não refletir a realidade.

Se você leu esses materiais, acho que já está preparado para dar o próximo passo dentro da renda fixa, ou seja, avançar em direção aos títulos de crédito privado.

E, como sempre, acho muito importante entender as características de um investimento antes de colocar o dinheiro nele. Por isso, neste relatório vou explicar as características dos principais títulos de crédito privado.

Títulos públicos vs. privados

Apenas para contextualizar, a diferença entre títulos públicos e crédito privado é basicamente o emissor.

No primeiro caso você está emprestando seu dinheiro para o governo, enquanto no segundo trata-se de para uma empresa, que pode ser uma instituição financeira (como um banco) ou não.

Considerando títulos emitidos com características similares, um título de crédito privado é considerado mais arriscado que um emitido pelo governo, uma vez que o risco de crédito (risco de calote) de uma companhia, por melhor que ela pareça ser, é maior e a liquidez do crédito privado costuma ser menor.

Por esses motivos, as taxas de juros paga pelos títulos de crédito privado quase sempre são superiores aos dos títulos públicos comparáveis, sendo essa uma opção para se obter um retorno adicional sem correr muito mais risco.

Títulos emitidos por instituições financeiras

Instituições financeiras, como bancos, financeiras e cooperativas de crédito, pegam dinheiro emprestado com investidores para emprestar para seus clientes.

Para fazer isso, elas emitem vários títulos de crédito privado, como CDBs, RDBs, LCIs/LCAs, LF e LC, sobre os quais falarei agora.

Esses títulos podem ser encontrados diretamente no seu banco ou em corretoras independentes.

CDB

O CDB (Certificado de Depósito Bancário), depois da poupança, possivelmente é o investimento mais conhecidos entre os investidores.

Esses títulos podem ser pós-fixados, prefixados ou indexados à inflação (se não souber o que é isso, explico nesse outro relatório).

A liquidez vai depender do CDB específico em que você aplicar. Isso significa que você pode resgatar seu dinheiro diariamente ou não.

Alguns bancos oferecem modalidades em que, apesar de ter liquidez diária, a remuneração aumenta quanto maior o tempo que o investidor mantiver o dinheiro aplicado, então é bom ficar de olho e pensar se vai conseguir deixar o dinheiro até o vencimento, caso contrário a rentabilidade pode acabar sendo não muito boa.

Os CDBs são garantidos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos). O FGC é uma entidade privada sem fins lucrativos que funciona como um mecanismo de proteção aos investidores de determinados títulos emitidos por instituições financeiras.

Caso o banco emissor “quebre”, o FGC cobre até R$ 250 mil por CPF por conglomerado financeiro (empresas de um mesmo grupo), porém, considerando conglomerados diferentes, existe um teto de pagamento de R$ 1 milhão no total por CPF a cada quatro anos.

Porém, isso não quer dizer que não haja risco nos investimentos protegidos pelo FGC.

O FGC é bem robusto, mas não tem dinheiro infinito, de modo que se ocorrer uma crise sistêmica financeira e vários bancos quebrarem, o FGC pode não ter recursos suficientes para cobrir todos os investidores.

RDB

O RDB (Recibo de Depósito Financeiro) é basicamente igual a um CBD com duas diferenças, a liquidez e possibilidade de negociação.

Enquanto os CDBs podem ter liquidez antes do vencimento e preveem a possibilidade de serem negociados e vendidos para outra pessoa, os RDBs quase sempre não podem ser resgatados antes do vencimento e são intrasferíveis. Porém, existem bancos que garantem liquidez diária também para o RDB, como o Nubank.

Os RDBs são garantidos pelo FGC.

LCIs/LCAs

As LCIs (Letra de Crédito Imobiliário) e as LCAs (Letra de Crédito do Agronegócio) são captações cujos recursos os bancos precisam necessariamente destinar a financiamento do setor imobiliário e de agronegócios, respectivamente.

Ambas podem ser pós-fixados, prefixados ou indexados à inflação.

O prazo de vencimento desses títulos é de no mínimo 90 dias e antes desse período nunca é possível resgatar seu dinheiro. Passado esse prazo, alguns títulos oferecem liquidez diária e outros só permitem resgate no vencimento.

Outro fator importante é que as LCIs/LCAs são isentas de Imposto de Renda para pessoa física. Mas nem vá se animando muito, pois o mercado se “ajusta”, de maneira que as taxas desses títulos costumam ser mais baixas, de modo que o rendimento acaba, muitas vezes, ficando parecido com o rendimento líquido de IR de um título de características similares mas sem isenção.

As LCIs e LCAs são garantidas pelo FGC.

Letra Financeira

As LFs (letras financeiras) podem ser pós-fixadas, prefixadas ou indexadas à inflação. Elas têm um prazo mínimo de vencimento de dois anos e não permitem resgate antes do vencimento, de modo que o único jeito de conseguir liquidez antes do vencimento é encontrando outro investidor que queira comprá-la de você.

Na prática, isso é muito difícil e custoso (se fizer através de uma corretora, vão te cobrar pela intermediação), então é melhor só aplicar um valor que tenha certeza de que não vai precisar antes do vencimento.

O investimento mínimo é de R$ 150 mil e as LFs não são garantidas pelo FGC.

Letra de Câmbio

As LCs (letras de câmbio) são um instrumento de captação muito parecido com o CDB. A diferença é que as LCs são um instrumento exclusivo das financeiras e, por isso, costumam apresentar um maior risco de crédito do que a maioria dos bancos. Ah, e apesar do nome, elas não têm nada a ver com o dólar ou alguma outra moeda.

Elas podem ser pós-fixadas, prefixadas ou indexadas à inflação.

Assim como os CDBs, as letras de câmbio podem ter liquidez diária ou não, conforme o título. Mas, diferentemente das LFs, as LCs são garantidas pelo FGC.

Títulos emitidos por instituições não financeiras

Enquanto instituições financeiras pegam seu dinheiro emprestado para emprestá-lo para outra pessoa ou empresa, instituições não financeiras o utilizam para investir no próprio negócio, construindo uma fábrica ou pagando os salários de seus funcionários, por exemplo.

Os principais títulos de renda fixa emitidos por empresas são as debêntures e os CRAs/CRIs, que podem ser encontradas nas corretoras de investimentos.

Ah, e não existe FGC para esses títulos, então nem vou me repetir quando abordar cada um.

Debêntures

As debêntures são talvez o mais clássico ativo de renda fixa, as chamadas bonds em inglês. Elas podem ser pós-fixadas, prefixadas ou indexadas à inflação.

Você empresta seu dinheiro para uma companhia e recebe ele de volta no vencimento corrigido por uma taxa de juros (conforme o tipo mencionado acima) e, dependendo do título, recebe juros periódicos, os cupons.

No caso das debêntures não existe resgate direto com o emissor, então se você precisar do dinheiro antes do vencimento, precisa encontrar outro investidor interessado em comprá-la de você. Porém, não é fácil encontrar uma contraparte, e uma corretora que fizer a intermediação te cobrará por isso.

Não é muito comum, mas acho importante ressaltar que algumas debêntures podem ter algumas cláusulas que dão alguma vantagem para o investidor ou para a empresa emissora, então é importante verificar se é o caso antes de aplicar seu dinheiro. Vou explicar as principais abaixo:

  • Conversíveis em ações: essas debêntures têm uma regra em que cada debênture pode ser convertida em um número determinado de ações. Se vale a pena converter, depende do preço de mercado da debênture e das ações no momento de avaliação. Como isso é um benefício para o investidor, esses títulos geralmente pagam uma taxa de juros inferior a um título similar, mas sem a cláusula de conversão
  • Recompra antecipada: essa cláusula permite que a companhia emissora recompre antecipadamente as debêntures em determinadas condições. A recompra geralmente é realizada em um momento benéfico para a emissora, por exemplo, quando as taxas de juros de mercado caem. Assim, a companhia recompra as debêntures e emite nova dívida a um custo inferior. Como se trata de um benefício para a emissora, esses títulos geralmente pagam uma taxa de juros superior a título um similar, mas sem cláusula de recompra

Por último, existem também as debêntures incentivadas, ou debêntures de infraestrutura, que são isentas de Imposto de Renda para pessoa física. Mas a lógica é a mesma da que comentei nas LCA/LCI. Como são mais atrativas, a demanda por elas é maior, o que reduz a taxa, o que faz com que muitas vezes elas não sejam tão mais atrativas quando comparadas a um título similar, mas com cobrança de IR.

Para terminar o papo sobre debêntures, outro fator para se ficar atento é sobre as garantias. Algumas empresas fornecem garantias para o caso de não conseguirem pagar sua dívida. Assim, é importante avaliar quais são (se existirem) e a qualidade dessas garantias.

CRAs/CRIs

Os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) são títulos cujos recursos devem ser destinados a financiar atividades nos setores de agronegócio e imobiliário, respectivamente.

Assim como debêntures, podem ser pós-fixados, prefixados ou indexados à inflação, com ou sem pagamento de cupons e não existindo resgate antes do vencimento.

Contudo, os CRAs/CRIs têm uma peculiaridade. Eles se tratam de um empacotamento de recebíveis (o chamado lastro), os quais a empresa emissora “cede” para o investidor do título. Por isso, a devedora de um CRA/CRI é também chamada de cedente.

Digamos por exemplo que uma construtora tenha vendido vários apartamentos a prazo, cujos compradores pagarão durante os próximos 20 anos. A empresa pode emitir um CRI e adiantar esses recebíveis com o mercado para já reinvestir esse valor na sua atividade imobiliária.

Por isso é muito importante entender qual o lastro do CRA/CRI e as coobrigações.

Dependendo do lastro, o que parece ser um título de baixo risco (por causa da empresa emissora) pode ser bem mais arriscado.

A companhia utiliza os recursos dos recebíveis para pagar o CRA/CRI. Se os devedores desses recebíveis não os pagarem (no exemplo, os compradores dos apartamentos), a companhia, por sua vez, também pode ter dificuldades de fazer os pagamentos previstos do título.

Na verdade, existem CRAs/CRIs em que o cedente não tem nem coobrigação em relação aos fluxos de recebíveis. Ou seja, se os devedores dos recebíveis ficarem inadimplentes, o cedente não tem nenhum compromisso em arcar com esses valores. Na prática, o risco de crédito desses títulos é 100% atrelado os devedores dos recebíveis.

Outra peculiaridade dos CRAs/CRIs é que algumas emissões preveem mais de uma série, sendo uma subordinada à outra.

Isso significa que o CRA/CRI sênior tem prioridade no recebimento. Se por acaso os devedores ficarem inadimplente, as classes subordinadas (às vezes há mais de uma) são impactadas primeiramente. Assim, as classes subordinadas funcionam como uma espécie de garantia ou colchão para a sênior.

Mas, como nada é de graça, o menor risco na classe sênior é acompanhado de um retorno esperado inferior ao das classes subordinadas.

Além de tudo isso, alguns CRAs/CRIs também preveem a possibilidade de recompra antecipada pelo emissor.

Para terminar, os CRAs/CRIs também são isentos de Imposto de Renda, na mesma lógica das LCAs/LCIs e das debêntures incentivadas.

_________

Acho que deu para perceber que cada título de renda fixa tem suas peculiaridades. Por isso, é importante entender bem o produto antes de aplicar o seu dinheiro.

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