Renda Fixa

Nubank: por que NÃO faz sentido deixar seu dinheiro nele

Samuel Torres, CFA29/09/2020

Ouço muita gente elogiando o Nubank. Da facilidade e recursos de seu aplicativo ao excelente atendimento.

E eu não posso discordar, já usei o Nubank e realmente gostei bastante.

E, até pela facilidade, muita gente utiliza o Nubank para aplicar sua reserva de emergência.

Contudo, para avaliar se é uma boa deixar seu dinheiro lá na conta do Nubank, é preciso deixar de lado o quanto você gosta da empresa e da facilidade de fazer a aplicação para ponderar quais são os riscos vs. benefícios de fazer isso.

Afinal, por mais que você ache o Nubank o máximo, imagino que não está a fim de fazer caridade e deixar seu dinheiro lá só para “ajudar” o “banco”, não é mesmo?

As aspas são porque o Nubank na realidade não é um banco, mas não vou entrar em detalhes do porquê, pois não é relevante para a análise desse relatório.

O primeiro passo, então, seria avaliar qual o risco de crédito do Nubank, ou seja, qual o risco da empresa quebrar.

Mas antes de fazer isso, gostaria de explicar a que riscos os seus clientes estão expostos. Isso porque o Nubank tem duas modalidades de aplicação com riscos bastante diferentes.

Duas maneiras de aplicar o seu dinheiro pelo Nubank

A primeira delas é a Nuconta, que é uma conta de pagamentos, o que é diferente de uma conta corrente de um banco tradicional.

O dinheiro depositado numa conta de pagamentos fica separado do patrimônio do banco, de maneira que a instituição não pode emprestá-lo para outras pessoas ou empresas.

Assim, se Nubank quebrar, seu dinheiro que estava na conta continua seu.

O que o Nubank faz é aplicar automaticamente o montante que você deixa na conta em títulos do governo, cujo risco de crédito é praticamente zero, e com isso promete te pagar 100% do CDI. Ah, e o dinheiro que fica na Nuconta tem liquidez diária, ou seja, você pode sacá-lo a qualquer momento.

Com isso, o risco de deixar seu dinheiro na Nuconta é bastante baixo. O maior risco que eu vejo é o tempo incerto que pode levar para conseguir ter acesso a seu dinheiro que estava na conta, caso o Nubank venha a quebrar.

Agora, vou passar para a segunda modalidade de investimento disponível no Nubank: o RDB.

O RDB é praticamente igual ao CDB, que explico junto a outros títulos de crédito privado nesse relatório aqui.

Isso significa que o Nubank pega o dinheiro que você aplica no RDB e o empresta para os outros clientes do banco. Em troca, o Nubank te paga 100% do CDI, também possibilitando resgate diário.

Existe também uma opção de aplicação no RDB chamada “Resgate Planejado”, em que o cliente define um prazo para aplicar uma certa quantia (dentro do qual não será possível resgatar esse montante), limitado a dois anos, obtendo uma rentabilidade de até 118% do CDI. 

E a consequência disso? Se o Nubank quebrar, seu dinheiro não está lá separado. Ele está misturado ao resto do patrimônio do banco e pode ser ou não que sobre algo para de pagar.

O lado positivo é que o RDB conta com proteção do Fundo Garantidor de Créditos. O FGC é uma entidade privada sem fins lucrativos que funciona como um mecanismo de proteção aos investidores de alguns títulos emitidos por instituições financeiras. Em caso de falência de um banco, o FGC paga até R$ 250 mil por CPF por banco, com um teto de pagamento de R$ 1 milhão no total por CPF a cada quatro anos.

O problema é que o FGC não tem dinheiro infinito. Na verdade, ele só conseguiria cobrir um pequeno percentual de todo o sistema bancário inteiro, de modo que se ocorrer uma crise bancária sistêmica, não existe garantia de que você receberia seu dinheiro de volta.

Assim, comparando a Nuconta com o RDB temos:

  • Nuconta: rendimento de 100% CDI, liquidez diária e sem risco de crédito
  • RDB: rendimento de 100% do CDI, liquidez diária e com risco de crédito
  • RDB (Resgate Planejado): rendimento de até 118% do CDI, liquidez apenas no vencimento e com risco de crédito

Em resumo, o RDB é um produto de maior risco, mas que remunera o mesmo que a Nuconta ou deixa seu dinheiro em troca de uma rentabilidade maior.

E a conclusão a que chego é: se for para escolher entre essas opções, fique com a Nuconta.

Contudo, não existe só o Nubank. Se formos olhar produtos semelhantes, como CDBs pós-fixados com liquidez diária, é possível encontrar opções de menor risco e maior rentabilidade.

No banco Daycoval, no momento em que escrevo esse relatório, há disponível um CDB a 110% do CDI. No BTG Pactual há um CDB a 104% do CDI, enquanto no Banco ABC tem um a 101% do CDI.

Já buscando por CDBs pós-fixados sem liquidez diária e vencimento daqui a dois anos (para comparar com o “Resgate Planejado” do Nubank) no BTG Pactual, Banco ABC e Daycoval encontrei opções a 114,5%, 113% e 112,5% do CDI respectivamente, um pouco inferior ao que paga o Nubank.

Contudo, se for para deixar o dinheiro “preso” por dois anos, há opções melhores, como LCAs e LCIs

As LCAs/LCIs são produtos de renda fixa isentos de Imposto de Renda. No BTG Pactual encontrei disponíveis a 116% do CDI e no ABC e no Daycoval é possível encontrá-las a mais de 110% do CDI com vencimento em dois anos. Essas rentabilidades equivaleriam a aplicar em um título não isento que pagasse 136% e 129% do CDI, respectivamente, acima do que paga o Nubank no “Resgate Planejado”.

Ambos são bancos médios de baixíssimo risco. Menor do que o do Nubank.

Assim, não vejo razão para deixar seu dinheiro no Nubank, seja na Nuconta ou no RDB.

Ainda assim, os clientes têm depositados no Nubank mais de R$ 17 bilhões!

R$ 17 bilhões que poderiam estar aplicados em investimentos de maior retorno e menor risco!

E a maior parte justamente no RDB, o produto com a pior relação retorno vs. risco.

 

 

Por falar em risco, quer saber quão arriscado é o Nubank? Então continue me acompanhando.

Mas, antes disso, gostaria de ressaltar que é possível obter maiores retornos que esses que acabei de citar, tanto dentro da renda fixa, quanto por meio de outras classes de ativo.

Com a taxa Selic na mínima histórica, em apenas 2,00% ao ano, é muito importante que você analise a se a alocação de seu portfólio de investimentos é adequada ao seu contexto de vida. Para saber mais detalhes, preparei recentemente esse outro relatório.

Qual o risco de crédito do Nubank?

Antes de olhar em mais detalhes, sinceramente, eu achava que fosse encontrar números bem piores, principalmente em se tratando de uma carteira de crédito apenas de pessoas físicas e em um momento de forte crise como a atual.

A inadimplência de fato aumentou em relação ao ano passado e encontra-se em patamar mais elevado do que dos grandes bancos brasileiros, mas não chega a ser um nível que gere preocupação.

 

Além disso, o índice de Basiléia do Nubank é bastante alto, o que dá mais segurança a quem empresta dinheiro para a instituição. O índice de Basiléia, grosso modo, mede a relação entre o patrimônio do banco e os seus ativos ponderados pelo risco. Assim, quanto maior o índice, melhor do ponto de vista de risco de crédito.

 

Mas aqui é importante fazer um parênteses. Os vários aumentos de capital (aportes pelos acionistas) que o Nubank recebeu de seus acionistas nos últimos anos ajudaram bastante a manter a Basiléia alta. E a necessidade desses aportes ocorreu justamente porque o banco nunca gerou lucro.

 

Quando alguém diz que o fato de o Nubank nunca ter dado lucro é um risco, logo aparecem os defensores dizendo que não dá lucro porque não quer. Os próprios executivos da instituição dizem que não gerar lucro nesse momento é uma escolha. O racional é que o Nubank estaria apenas gastando muito para continuar adquirindo novos clientes e crescendo aceleradamente, mas que, se quisesse, poderia cortar esses gastos, crescer menos, mas se manter de pé como uma empresa lucrativa.

Algumas pessoas aproveitam esse gancho e utilizam o “argumento Amazon”, fazendo referência aos muitos anos que empresa passou sem gerar resultado para depois se tornar a grande potência que é hoje.

Mas não acho que seja tão simples assim. Não é porque a Amazon e algumas outras empresas não deram lucro por muitos anos antes de virarem grandes e lucrativas empresas que toda empresa que não dá lucro necessariamente dará certo.

Muito pelo contrário. A grande maioria das empresas que dão prejuízos contínuos acabam falindo.

Mas, por enquanto, em termos de crescimento, a estratégia realmente está dando certo.

 

Mas quanto ao que vai acontecer quando o Nubank decidir parar de (ou não tiver mais recursos para) investir no crescimento, não tenho tanta certeza.

Uma maneira que gosto de analisar um banco é avaliar separadamente como anda a atividade de crédito do resto das atividades, como por exemplo serviços que geram receitas com tarifas.

Uma maneira simples de verificar isso é a linha do demonstrativo de resultados chamada “Resultado bruto da intermediação financeira”. Essa linha é basicamente o resultado das atividades de crédito, sem levar em conta as despesas administrativas, de marketing, impostos, etc. É o que o banco ganha emprestando, descontando as provisões para devedores duvidosos e perdas efetivas, menos o custo de captação (no caso do Nubank os depósitos por meio do RDB são uma das fontes de captação).

E foi aí que eu vi algo estranho que me chamou a atenção.

Primeiro, que até 2019, o Nubank estava sofrendo perdas significativas nessa linha:

Fonte: Nubank

 

Daí, quando fui ver o que aconteceu em 2020, foram duas surpresas.

A primeira, é que o Nubank começou a colocar as receitas e despesas relacionadas a tarifas dentro do resultado de crédito, que é algo que até 2019 ele não fazia e é algo que nunca vi nenhum banco fazer.

Observe a imagem abaixo, referente ao demonstrativo de 2020, e como até 2019 (imagem acima) as receitas de prestação de serviços e tarifas estavam mais abaixo na demonstração de resultado.

Fonte: Nubank

 

Como, segundo o demonstrativo de 2020, os serviços que geram tarifa têm resultado positivo, fazer essa mudança na forma de mostrar os números dá a entender que a operação de crédito é melhor do que de fato é.

Mas não para por aí. Ainda tem o segundo fato que me surpreendeu.

Na imagem imediatamente anterior, temos também o resultado do primeiro semestre de 2019 nessa nova forma de mostrar os números. Já na imagem anterior a essas, temos os dados de 2019 completo e os dados do segundo semestre. Subtraindo um do outro é possível saber como foi o primeiro semestre de 2019 de acordo com a forma antiga do Nubank mostrar os números.

De acordo com esse relatório mais antigo, o resultado de intermediação financeira do primeiro semestre de 2019 foi de R$ 180 milhões negativos.

Quando eu pego a mesma linha no demonstrativo mais recente e retiro as receitas e despesas não relacionadas a tarifas, chego em um valor de R$ 96 milhões positivos para primeiro semestre de 2019.

E aí, o que significa isso?

Quando faço a mesma conta para o primeiro semestre de 2020, chego num resultado de intermediação financeira ex-tarifas de R$ 418 milhões positivos.

Seria leviano de minha parte afirmar que o Nubank está maquiando os números. Mas no mínimo posso afirmar que essa maneira “única” de reportar os números dificulta a avaliação de risco do banco.

Antes de terminar, também é interessante verificar qual a classificação de risco segundo alguma agência de rating.

A S&P, agora em março, reduziu a perspectiva do Nubank para negativa, mantendo sua nota em brA-, o que não é ruim. Mas a instituição destacou a limitada diversificação de negócios e os desafios para reverter os prejuízos.

Assim, minha conclusão é a seguinte: olhando os números passíveis de avaliação (os que não foram afetados pela alteração de apresentação que expliquei), vejo o risco de crédito do Nubank como moderado.

Com certeza seu risco é maior do que dos bancos ABC e Daycoval que comentei acima e que oferecem investimentos com mesma liquidez e maior retorno.

Sendo assim, não vejo sentido em deixar o dinheiro aplicado no Nubank, a não ser que seja pela comodidade e seja um dinheiro pequeno para pagar as contas do dia a dia, que não praticamente fará diferença se está rendendo a 100% ou 120% do CDI.

E se for deixar algum dinheiro no Nubank, também não vejo razão para aplicar no RDB. A Nuconta apresenta um risco menor e tem a mesma rentabilidade.

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