Renda Fixa

Teoria vs. realidade: a "pegadinha" da renda fixa!

Samuel Torres, CFA28/07/2020

Você já comprou algum título de crédito privado? Você sabe se o preço que aparece na tela ou no extrato de sua corretora realmente reflete a realidade?

Não entendeu a pergunta?

Normal, esse assunto não é mesmo muito comentado por aí. Mas deveria!

Isso porque os valores dos investimentos em renda fixa que aparecem na sua corretora podem ser bem diferentes dos valores de venda efetivo caso você precise se desfazer de alguns títulos.

Esse “problema” acontece porque existem duas formas de calcular o preço de um título desse tipo.

Uma é chamada de marcação na curva de títulos de renda fixa, uma metodologia que calcula um preço teórico.

Outra chama-se marcação a mercado, que, se não fornece o preço real, pelo menos dá uma estimativa bem mais próxima da realidade de quanto valem seus títulos de renda fixa.

Vamos entender isso juntos?

Marcação a mercado vs. marcação na curva

Para contextualizar, primeiramente vou explicar porque as corretoras não te mostram simplesmente o preço de mercado de todos os títulos de renda fixa.

O motivo é simples: nem sempre elas sabem!

Quando alguém fala sobre o preço de uma ação, o tal preço é simplesmente o último valor pela qual a ação foi negociada.

No caso de um título público, como um Tesouro Prefixado, por exemplo, a lógica é a mesma, pois eles são negociados diariamente, apresentando, assim, alta liquidez.

Contudo, o que acontece é que os títulos de renda fixa de crédito privado têm uma liquidez muito baixa. Isso significa que são muito pouco negociados. Em alguns casos nem negociação existe. Nesses casos, é simplesmente impossível estabelecer um preço de mercado.

Para solucionar esse problema existem duas alternativas.

A primeira é estimar qual seria o preço do título caso ele fosse vendido naquele dia. Isso é a chamada marcação a mercado.

Essa estimativa envolve utilizar os preços a que estão sendo negociados outros títulos com características similares, fazendo ajustes conforme algumas variáveis da precificação, como um risco de crédito maior ou menor, por exemplo. Dessa forma, o detentor do título teria uma ideia “em tempo real” do preço daquele título, ainda que apenas aproximado, caso precisasse liquidá-lo.

A outra alternativa é a marcação na curva. Ela nada mais é do que calcular o preço do título levando em consideração apenas a taxa de juros contratada no momento da compra, o que é equivalente a considerar que o ativo será mantido até o vencimento.

Esse, no entanto, não é o preço real caso seja necessário vender o título, e por isso é chamado de preço teórico.

Contudo, conforme mostrado no gráfico abaixo, quanto mais próximo da data de vencimento, mais o preço de mercado (estimado ou não) e o preço teórico se aproximam.

Fonte: Tesouro Direto

Agora que você sabe disso, já deve imaginar que o que acontece quando a corretora coloca no extrato os preços marcados na curva é que o investidor fica sem visibilidade sobre as reais condições de seus investimentos e, consequentemente, não tem informações para tomar as melhores decisões.

Talvez o caso mais famoso de preços que não refletem a realidade seja o das debêntures da Rodovias do Tietê. Naquela ocasião, de um dia para o outro a XP marcou os títulos a zero no extrato dos clientes que tinham o papel, por conta da declaração de vencimento antecipado pelos debenturistas, em função da dificuldade da empresa em realizar os pagamentos.

A questão é que as dificuldades financeiras da companhia já eram conhecidas muito antes. Assim, se esses títulos fossem marcados a mercado desde o início, os investidores já teriam sabido anteriormente que as condições da empresa e, consequentemente do papel, tinham se deteriorado.

Abaixo apresento um gráfico da Anbima em que são mostrados o preço teórico (PU PAR) e o preço indicativo, que é uma estimativa do preço real de mercado das debêntures da Rodovias do Tietê.

Observe que muito antes de as debêntures serem marcadas a zero, já era possível saber que elas estavam valendo pouco mais de 40% do preço teórico.

Fonte: Anbima

Por isso, nós alertamos: você que investe em crédito privado, fique atento se as informações que a corretora te passa condizem com a realidade.

Nos dois links abaixo é possível consultar o preço indicativo e a taxa indicativa levantados pela Anbima para várias debêntures, CRAs e CRIs, o que pode te ajudar a saber o real valor de mercado de seus investimentos.

Consulte os indicatitvos de debêntures na Anbima

Consulte os indicativos de CRAs e CRIs na Anbima

Essa informação geralmente não é divulgada pela corretora, mas acreditamos que é de fundamental importância para os investidores.

Com essa explicação, esperamos ter ajudado a esclarecer esta que é umas das maiores pegadinhas do mercado privado de títulos de renda fixa. Mas caso tenha alguma dúvida, é só nos mandar uma pergunta no atendimento@capitalresearch.com.br ou por meio do Instagram ou LinkedIn

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